VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA
Qual é o seu jogo?

domingo, 30 de outubro de 2011

Insensatez

O quarto era enorme. Uma cama king que me convidava só de pensar em quem estaria ao meu lado. Milhões de almofadas sobre ela e ali eu imagina aquele vestido vermelho mergulhado. Luzes pequenas e velas pra todo lado, flores na parede, num papel que adornava a cabeceira da cama e espelhos, em frente, em quase toda a parede da frente. Bonito e ousado, um ambiente feito para o amor...

Ao lado da cama, um móvel cheio de andares, onde se exibiam copos, taças, bebidas, balde de gelo, potes com biscoitos e bombons, e é claro, flores e velas.

Ao fundo, um pequeno frigobar, todo pintado de azul, estilizado. Uma poltrona enorme de um outro lado, ao lado de uma mesinha redonda cheia de livros, ao lado de uma estante pequena, mas também cheia de livros.

Uma porta dava passagem ao closet e ao banheiro, que escondia uma banheira redonda e totalmente rodeada de vidros belos cheios de liquidos coloridos, que não sei se era de shampoo, perfume, ou sei lá o que. E flores.

Era magnifica a beleza daquele apartamento e como trazia a minha cabeça a ideia de uma noite sensual, cheia de encantos e mistérios, e ao mesmo tempo doce, longa, deliciosa...

Karina falou e eu levei um susto que quase me traí:

- Amor, nunca vi nada tão bonito. Realmente eu moraria num quarto desses!

Senti uma dor no peito quando vi o que estava acontecendo e como eu estava ali, ao lado dela e pensando tanta coisa absurda.

Quanta insensatez da minha parte, eu que sempre havia criticdo o Zé, agora me comportava como ele. E com uma esposa tão maravilhosa quanto a minha.

Eu a abracei calorosamente e disse:

- Quer um igual ? É bonito mesmo.

Ela me sorriu suavemente, me deu um beijo delicado e disse:

- Igual não, este é a imagem da Joana. Quero um tão lindo quanto, mas diferente, que seja a nossa imagem !!! Algo que pertença a nós dois, apenas!

E me olhou de uma forma que eu imaginei que ela estivesse sacando tudo que estava acontecendo ali.

Retornamos à sala de mãos dadas e eu procurei imediatamente uma bebida, pra ver se me ocupava com alguma coisa que não tivesse ligação com tudo aquilo.
Achei minha taça de vinho, depositada na varanda quando recebi o convite ao quarto e o tomei como se fosse um copo dágua em mãos sedentas.

Ao retornar à sala, vi Karina me olhando e sorrindo. Com certeza, ela já havia percebido minha aflição. Só não sabia se ela já havia percebido o motivo. Achei melhor ficar ao lado dela, por segurança.

O jantar estava delicioso e como tudo naquela noite, exótico e diferente. Marrie me deu guarita em dois ou três foras que dei, com essa minha mania de falar sem pensar. Mas a verdade é que, sempre que isso acontecia, as duas estavam me olhando fixamente: Joana, com aquele olhar maroto que seduz e não diz nada; Karina, com o olhar carinhoso e observador, de quem diz: 'não sou trouxa'!

Mais tarde, licores, cafés, jazz no ar e uma conversa boa entre todos na sala. Parecia estar tudo calmo. Uma ótima oportunidade para sair sem deixar sinais impróprios e com o meu eixo retomado.

Celso e Cristina já haviam se despedido logo após o jantar, pois ele tinha cirurgia no dia seguinte, cedo.

Num minuto, Marrie começou a dizer que estava tonta, se sentindo enjoada, estranha. Karina levou-a para o banheiro social e Jeronimo a acompanhou. Maia já estava tão bêbado que nem tomava conhecimento do que estava acontecendo. Pelo que me lembro, ele cochilava no meio de nossa conversa e, nesse momento, ele mais que cochilava, parecia estar realmente dormindo, sentado numa poltrona enorme ao canto da sala.

Estávamos completamente sós na sala e Joana chegou perto de mim.

- Não imaginava que pudesse acontecer algo assim hoje. Se pelo menos Celso ainda estivesse aqui pra diagnosticar o que ela tem...

- Não se aflija. Karina e Jeronimo estão dando suporte. Talvez seja um pouco de bebida a mais, Marrie não é de beber muito.

- É verdade, uma vez tomamos um belo porre juntas e ela deu vexame! Mas só tinha tomado dois drinques! (risos) Eu que estava no meu quarto copo tive que tomar providências e a carreguei quase arrastada. Foi uma loucura !!

Disse isso com a carinha mais sapeca do mundo e uma gargalhada tão gostosa! Eu a peguei e segurei o seu rosto. Parei. Pensei por 10 segundos, olhos nos olhos...

- Loucura é eu estar aqui. Acho melhor ir embora.

Me levantei disposto a pegar Karina e sair.

- Espere, Marrie precisa de Karina. Não vá agora. Não vê que tudo isso aqui foi pra você?

Cheguei a me sentir tonto com a revelação. Isso sim era loucura! Não era coisa da minha cabeça apenas, ela também me queria da mesma forma que eu! Senti a excitação me dominar, o suor chegar e o coração disparar de forma indecente. Eu a olhei de volta, peguei seu rosto em minhas mãos e disse:

- Não sei o que está acontecendo, mas sei que devo ir embora. Marrie pode contar com você pra ajudá-la. Mas quem vai me ajudar? Quem vai poder domar o que eu estou sentindo agora? Joana, se eu ficar com você mais dois minutos, vou fazer uma bobagem sem volta.

Tentei sair e ela me puxou. E por um instante eu mergulhei na sua boca, doce e macia, sem folego, sem juizo...

Fugi correndo, fui ao banheiro, peguei Karina, pedi desculpas ao Jeronimo, pedi em alta voz pra Joana cuidar de Marrie, e saímos quase imediatamente.

No carro, Karina foi em silêncio até nossa casa. Ao estacionar ela me perguntou:

- O que houve? Porque saímos assim?

Não respondi. Não sabia o que dizer. Só sai do carro, abri a porta pra ela, a peguei pela mão e a levei firmemente pra dentro.

Fingi que dormi. Eu acho que ela fingiu que dormiu. O silêncio que ouvi por toda a madrugada fez as horas passarem devagar e a tristeza de não saber mais dominar meus sentimentos tomaram conta de cada segundo. E o gosto daquele beijo, eu tinha a impressão que nunca sairia da minha boca.

domingo, 23 de outubro de 2011

Vou amar...

"Se tenho companhia, um abraço a me envolver, sussurros, beijinhos, sou mais que rica, encantada, uma pessoa abençoada, poeta, afortunada.

Se tenho o amor no peito sou rica de qualquer jeito, tenho pra dar, basta aguardar a hora certa e quem mereça que eu vá abençoar.

Se não tenho nada, nem sentimento no coração, sou andarilha sem razão. Não há motivos pra lamentar a solidão. Sou casa sem conteúdo, aberração!

Vou sempre amar, independente de haver o objeto da paixão!
Ele vai ouvir meu coração e atenderá ao chamado... Na hora certa !" (CP)

Cena 8 - Por mais que eu quisesse evitar aquele olhar


A noite do jantar aconteceu, é claro. Na verdade eu não tinha nenhum desculpa que fosse justa pra não aceitar o convite, e ainda existia uma medo louco de Karina conhecê-la mais dia, menos dia e conversarem... Minha mentira poderia ficar evidente. Além do mais, eu tinha mesmo que me governar e seria mais correto enfrentar e vencer que desistir covardemente, sem sequer saber o que teria acontecido se eu não fosse lá.

E no dia D, tudo transcorreu de forma tumultuada e numa sessão de momentos tão intensos que me pareceram quase insuportáveis. Pra mim... Talvez, apenas para mim.

Não sei porque cargas dágua, Karina resolveu se enfeitar nesta noite, daquele jeito. Talvez o fato de ir a casa de uma cliente minha, de quem ela nunca tinha ouvido falar a tenha deixado esperta e se colocou tão linda como há muito tempo não a via. Simples e perfeita num vestido preto que mostrava seu corpo perfeito de forma quase sensual, ainda que levemente discreto. O perfume que eu havia dado a ela no ano anterior e que eu não me lembrava da última vez que ela o tinha usado. É, Karina se vestiu para matar e eu fiquei um certo momento a observando, encantado: como era linda a minha amada esposa e como eu a amava !!! Naquele minuto, tive vontade de abraçá-la, despir cuidadosamente aquele vestido preto, respirar profundamente aquele perfume até ficar embriagado e nos seus braços esquecer todas as bobagens que estavam me perturbando. Mas algo não me deixou mexer um único músculo. Karina percebeu que eu estava babando e maldosamente desfilou triunfal à minha frente, pegou sua bolsa num gesto leve e me olhou por cima dos ombros.

- Vamos, amor? Senão chegamos atrasados.

Me senti forte, com a certeza que eu tiraria de letra aquela noite ameaçadora.

Algum acidente na grande avenida que nos levava ao bairro onde Joana morava parou o trânsito. Ficamos quase 15 minutos estacados num determinado ponto, sem condições de sair, voltar, retornar. Meu coração começou a disparar e, de repente, eu estava suando e super nervoso. Por um instante percebi que meus nervos me delatavam. Mas eu não estava tranquilo quando saí de casa? Iríamos atrasar 15 a 20 minutos apenas e com motivo justificável. Por que este descontrole? Karina me olhava de vez em quando. Só me olhava e isso me deixava ainda mais nervoso. Situação estranha e atípica.

Quando o trânsito andou, eu já estava quase desmaiando e falando bobagens, até mesmo maldizendo o filho da mãe que não dirigia direito e esmagou o carro no container da calçada, colocando mais dois carros engatilhados à frente, vítimas do seu ato. E Karina me olhava.

Enquanto dirigia até a casa de Joana, eu procurava me controlar. Rezei e cantarolei canções idiotas só na minha cabeça. Tentei lembrar de piadas e de coisas idiotas pra ver se eu sorria.

Ao chegarmos à porta do apartamento, Karina pegou minha mão, entrelaçou os dedos, me sorriu abertamente e apertou a campainha.

Um homem de aparentes 40 anos e cabelos grisalhos rigidamente penteados veio nos atender. Quando abriu a porta nos sorriu, olhou para Karina por uns 10 segundos em silêncio total, como que magnetizado e só depois falou.

- Entrem, Joana está lá dentro e já vem.

Tive vontade de dar um soco na cara do engomadinho metido a charmoso que meteu os olhos daquele jeito na minha mulher. Odiei aquele homem na horinha em que ele a olhou.

- Roberto Maia de Albuquerque, escritor, já ouviram falar de mim? (um risinho sínico...) Mas podem me chamar de Maia, que é como todo mundo me chama na intimidade (mais um sorriso totalmente voltado pra Karina... Mais um desses e eu daria um tapa na cara dele!).

E Karina sorriu... Linda... E eu a odiei.

Não havia mais ninguém ainda além do Maia. O apartamento era totalmente decorado com flores e velas, quase alternativo, entre sofás e almofadas gigantes brancas, beges, um rosinha que eu acho que era o tal salmão e azul claro. Um ambiente bem feminino e com certeza, delicado. Não achei que fosse combinar com sangue e me contive.

A campainha tocou e Maia foi novamente atender, convidando-nos a sentar onde quisessemos. Eu o acompanhei com os olhos, de pé, até a porta.
Chegou outro casal, mais velhos, aparentavam uns 50 a 55 anos, mas muito elegantes e sóbrios. O homem me pareceu sério demais e a mulher, uma dama, encantadora, com uma postura quase real, um rosto levemente marcado pelo tempo, mas muito bonito.

- Olá Celso, como vai ? Oi Marta. Venham conhecer os amigos de Joana. Ele foi o salvador dela naquela questão que ela nos contou domingo, lembram ? Então, Celso, este é o Dr. Rubens e sua linda esposa, Karina. Dr. Rubens, este é nosso grande amigo Celso Alencar, um médico charlatão da pior qualidade e sua maravilhosa esposa, Cristina. Com certeza, a Dama e o Vagabundo (e novamente aquele risinho...).

Na verdade, os dois cairam na gargalhada, deixando-nos como palhaços ali a olhar. Ele e o tal carrancudo. Deixando-nos, não. Karina imediatamente sorriu e entrou na brincadeira.

- Muito prazer, Celso, com certeza você vai nos contar esta noite qual o segredo, não vai? Charlatões, normalmente, são ricos e conseguem manter um casamento perfeito com sua inteligência. Cristina, ele é mesmo o nobre vagabundo ou o Maia falou isso só pra nos embaraçar?

- Absoluta verdade, Karina. Mas sou eu que vou contar o segredo, pois na verdade, eu que me disfarço de Dama: sou uma fraude! - E Cristina sorriu pra Karina como se fossem amigas de longa data.

E eu calado, sofria entre a incerteza do que elas falavam e a raiva do Maia pela piada, e de Karina pela intimidade abusiva com todos !!! Ela falou do Maia como se fossem amiguinhos e ele me chamou de doutor, mantendo a distância e à Karina como se fossem amiguinhos !!!

Comecei a suar de novo e percebi que se não parasse de pensar, iria agir e poderia fazer algo realmente idiota.

Neste minuto, como que para me salvar da aflição, entra na sala uma mulher estonteante, com aqueles olhos fitos em mim, unicamente em mim. Vestido vermelho, colado, parecia a própria pele... E aquele decote... Aquele decote !!! Meu Pai do Céu !!!

- Dr. Rubens, você veio de verdade, que bom ! Tive medo que não viesse.

Acredito que falava em tom normal, mas me pareceu sussurrar ao meu ouvido. Eu acalmei na hora, sorri feito um idiota e falei:

- Imagina, eu falei que vinha não falei? Promessa é dívida. Aqui estou eu.

Não sei quanto tempo eu fiquei ali olhando pra ela, cravado naquele olhar. Deve ter sido uns 5 ou 6 segundos, mas me pareceu ter sido 'sempre'...

A campainha tocou me acortando da minha tolice. Caiu a ficha e eu corri pra apresentar Karina antes que os novos convidados chegassem e tudo ficasse muito desconcertante.

- Muito prazer Karina, seja bem-vinda à minha casa. Dr. Rubens, como sua esposa é linda !

Era verdade, mas eu simplesmente olhava pra ela, pra Joana.

Marrie e Jerônimo chegaram pra minha calma e alegria. Eu a abracei com se tivesse 10 anos que eu não a visse. Peguei Jerônimo e o chamei pra fumarmos um charuto na sacada, de forma que eu pudesse sair dali por alguns minutinhos.

Ficamos ali falando de futebol e sobre o novo sítio que ele havia comprado e todos os demais ficaram na sala com algum outro assunto que me pareceu animado demais.

Joana veio até a sacada, me deu aquele olhar de novo, me ofereceu uma taça de vinho e outro para Jerônimo. Aceitamos e falamos os três, uma meia dúzia de bobagens qualquer sobre o visual lindo que ela tinha daquela sacada.
Jerônimo pediu licença e entrou com alguma desculpa que não me recordo.

Por algum tempo, eu fiquei ali olhando aqueles olhos absurdos, sem reparar se alguém me via daquele jeito. Joana me olhava atrás da sua taça de vinho. Se estivéssemos sós eu a teria beijado com paixão naquela hora. Mas algo me mantinha parado e não era a presença de Karina, pois neste momento eu nem lembrava da sua existência.

Comecei a suar frio de novo. Acho que este é um sinal divino, pra me avisar que algo está passando do ponto. Creio que minha respiração se elevou e ela sorriu. Num gesto delicado e sensual inclinou a cabeça e com um sorriso maroto me perguntou:

- Gostou do meu apartamento?

- Amei. Lindo. Delicado e belo como você.

Eu não acreditei que havia dito aquilo! E eu não conseguia sequer refazer, falar mais alguma coisa, desfazer, brincar, sei lá, só ficava olhando seus olhos.

- Você é sempre incrivelmente gentil. Obrigada. Depois lhe mostro o resto.

Ãh ??? Resto ? Ai... O que ela está dizendo?

- Você vai ver que trabalho primoroso o arquiteto fez no ambiente íntimo, uma divisão dos quartos inteligente e prática. Eu poderia morar só no meu quarto por meses...

Quase que eu disse: 'eu também' !!! Mas falei : "Estou louco pra ver!".

Sim, eu estava louco !!! Isso não deveria ter sido dito!

Neste instante Karina chegou até nós, como uma aparição, de repente, bem no meio da troca de olhares. Gelei.

- Joana, a Marrie disse pra mim que você fez um quarto incrível, com todos os itens que se possa imaginar pra se viver lá dentro sem ter que vir na cozinha, é mesmo ? Ando pensando em reformar o nosso. Você se importaria de Marrie me levar pra ver?

- Imagina Karina, eu mesma vou levá-la.

E sairam as duas, a 'tricotar' como fazem as mulheres, com tal naturalidade e beleza que nos deixam de queixo caído.

Dois passos e duzentas horas (eu acho) depois, Joana olhou pra trás e me perguntou:

- Você não disse que queria ver? Vamos lá !

Como ela foi falar isso na frente da Karina? Me senti traído pela minha própria quase-talvez-quemsabe-impossível amante !

E após recuperar a fala, eu disse : 'Claro!' e as segui como um cordeirinho.

Olhei pra Marrie quando passei perto dela, pisquei o olho e a pedi que viesse comigo em gestos. Marrie, minha amiga infalível, compreendeu a situação e veio me acompanhar apoiada em meu braço.

Respirei aliviado e protegido. Por um tempo.