VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

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Qual é o seu jogo?

domingo, 23 de outubro de 2011

Cena 8 - Por mais que eu quisesse evitar aquele olhar


A noite do jantar aconteceu, é claro. Na verdade eu não tinha nenhum desculpa que fosse justa pra não aceitar o convite, e ainda existia uma medo louco de Karina conhecê-la mais dia, menos dia e conversarem... Minha mentira poderia ficar evidente. Além do mais, eu tinha mesmo que me governar e seria mais correto enfrentar e vencer que desistir covardemente, sem sequer saber o que teria acontecido se eu não fosse lá.

E no dia D, tudo transcorreu de forma tumultuada e numa sessão de momentos tão intensos que me pareceram quase insuportáveis. Pra mim... Talvez, apenas para mim.

Não sei porque cargas dágua, Karina resolveu se enfeitar nesta noite, daquele jeito. Talvez o fato de ir a casa de uma cliente minha, de quem ela nunca tinha ouvido falar a tenha deixado esperta e se colocou tão linda como há muito tempo não a via. Simples e perfeita num vestido preto que mostrava seu corpo perfeito de forma quase sensual, ainda que levemente discreto. O perfume que eu havia dado a ela no ano anterior e que eu não me lembrava da última vez que ela o tinha usado. É, Karina se vestiu para matar e eu fiquei um certo momento a observando, encantado: como era linda a minha amada esposa e como eu a amava !!! Naquele minuto, tive vontade de abraçá-la, despir cuidadosamente aquele vestido preto, respirar profundamente aquele perfume até ficar embriagado e nos seus braços esquecer todas as bobagens que estavam me perturbando. Mas algo não me deixou mexer um único músculo. Karina percebeu que eu estava babando e maldosamente desfilou triunfal à minha frente, pegou sua bolsa num gesto leve e me olhou por cima dos ombros.

- Vamos, amor? Senão chegamos atrasados.

Me senti forte, com a certeza que eu tiraria de letra aquela noite ameaçadora.

Algum acidente na grande avenida que nos levava ao bairro onde Joana morava parou o trânsito. Ficamos quase 15 minutos estacados num determinado ponto, sem condições de sair, voltar, retornar. Meu coração começou a disparar e, de repente, eu estava suando e super nervoso. Por um instante percebi que meus nervos me delatavam. Mas eu não estava tranquilo quando saí de casa? Iríamos atrasar 15 a 20 minutos apenas e com motivo justificável. Por que este descontrole? Karina me olhava de vez em quando. Só me olhava e isso me deixava ainda mais nervoso. Situação estranha e atípica.

Quando o trânsito andou, eu já estava quase desmaiando e falando bobagens, até mesmo maldizendo o filho da mãe que não dirigia direito e esmagou o carro no container da calçada, colocando mais dois carros engatilhados à frente, vítimas do seu ato. E Karina me olhava.

Enquanto dirigia até a casa de Joana, eu procurava me controlar. Rezei e cantarolei canções idiotas só na minha cabeça. Tentei lembrar de piadas e de coisas idiotas pra ver se eu sorria.

Ao chegarmos à porta do apartamento, Karina pegou minha mão, entrelaçou os dedos, me sorriu abertamente e apertou a campainha.

Um homem de aparentes 40 anos e cabelos grisalhos rigidamente penteados veio nos atender. Quando abriu a porta nos sorriu, olhou para Karina por uns 10 segundos em silêncio total, como que magnetizado e só depois falou.

- Entrem, Joana está lá dentro e já vem.

Tive vontade de dar um soco na cara do engomadinho metido a charmoso que meteu os olhos daquele jeito na minha mulher. Odiei aquele homem na horinha em que ele a olhou.

- Roberto Maia de Albuquerque, escritor, já ouviram falar de mim? (um risinho sínico...) Mas podem me chamar de Maia, que é como todo mundo me chama na intimidade (mais um sorriso totalmente voltado pra Karina... Mais um desses e eu daria um tapa na cara dele!).

E Karina sorriu... Linda... E eu a odiei.

Não havia mais ninguém ainda além do Maia. O apartamento era totalmente decorado com flores e velas, quase alternativo, entre sofás e almofadas gigantes brancas, beges, um rosinha que eu acho que era o tal salmão e azul claro. Um ambiente bem feminino e com certeza, delicado. Não achei que fosse combinar com sangue e me contive.

A campainha tocou e Maia foi novamente atender, convidando-nos a sentar onde quisessemos. Eu o acompanhei com os olhos, de pé, até a porta.
Chegou outro casal, mais velhos, aparentavam uns 50 a 55 anos, mas muito elegantes e sóbrios. O homem me pareceu sério demais e a mulher, uma dama, encantadora, com uma postura quase real, um rosto levemente marcado pelo tempo, mas muito bonito.

- Olá Celso, como vai ? Oi Marta. Venham conhecer os amigos de Joana. Ele foi o salvador dela naquela questão que ela nos contou domingo, lembram ? Então, Celso, este é o Dr. Rubens e sua linda esposa, Karina. Dr. Rubens, este é nosso grande amigo Celso Alencar, um médico charlatão da pior qualidade e sua maravilhosa esposa, Cristina. Com certeza, a Dama e o Vagabundo (e novamente aquele risinho...).

Na verdade, os dois cairam na gargalhada, deixando-nos como palhaços ali a olhar. Ele e o tal carrancudo. Deixando-nos, não. Karina imediatamente sorriu e entrou na brincadeira.

- Muito prazer, Celso, com certeza você vai nos contar esta noite qual o segredo, não vai? Charlatões, normalmente, são ricos e conseguem manter um casamento perfeito com sua inteligência. Cristina, ele é mesmo o nobre vagabundo ou o Maia falou isso só pra nos embaraçar?

- Absoluta verdade, Karina. Mas sou eu que vou contar o segredo, pois na verdade, eu que me disfarço de Dama: sou uma fraude! - E Cristina sorriu pra Karina como se fossem amigas de longa data.

E eu calado, sofria entre a incerteza do que elas falavam e a raiva do Maia pela piada, e de Karina pela intimidade abusiva com todos !!! Ela falou do Maia como se fossem amiguinhos e ele me chamou de doutor, mantendo a distância e à Karina como se fossem amiguinhos !!!

Comecei a suar de novo e percebi que se não parasse de pensar, iria agir e poderia fazer algo realmente idiota.

Neste minuto, como que para me salvar da aflição, entra na sala uma mulher estonteante, com aqueles olhos fitos em mim, unicamente em mim. Vestido vermelho, colado, parecia a própria pele... E aquele decote... Aquele decote !!! Meu Pai do Céu !!!

- Dr. Rubens, você veio de verdade, que bom ! Tive medo que não viesse.

Acredito que falava em tom normal, mas me pareceu sussurrar ao meu ouvido. Eu acalmei na hora, sorri feito um idiota e falei:

- Imagina, eu falei que vinha não falei? Promessa é dívida. Aqui estou eu.

Não sei quanto tempo eu fiquei ali olhando pra ela, cravado naquele olhar. Deve ter sido uns 5 ou 6 segundos, mas me pareceu ter sido 'sempre'...

A campainha tocou me acortando da minha tolice. Caiu a ficha e eu corri pra apresentar Karina antes que os novos convidados chegassem e tudo ficasse muito desconcertante.

- Muito prazer Karina, seja bem-vinda à minha casa. Dr. Rubens, como sua esposa é linda !

Era verdade, mas eu simplesmente olhava pra ela, pra Joana.

Marrie e Jerônimo chegaram pra minha calma e alegria. Eu a abracei com se tivesse 10 anos que eu não a visse. Peguei Jerônimo e o chamei pra fumarmos um charuto na sacada, de forma que eu pudesse sair dali por alguns minutinhos.

Ficamos ali falando de futebol e sobre o novo sítio que ele havia comprado e todos os demais ficaram na sala com algum outro assunto que me pareceu animado demais.

Joana veio até a sacada, me deu aquele olhar de novo, me ofereceu uma taça de vinho e outro para Jerônimo. Aceitamos e falamos os três, uma meia dúzia de bobagens qualquer sobre o visual lindo que ela tinha daquela sacada.
Jerônimo pediu licença e entrou com alguma desculpa que não me recordo.

Por algum tempo, eu fiquei ali olhando aqueles olhos absurdos, sem reparar se alguém me via daquele jeito. Joana me olhava atrás da sua taça de vinho. Se estivéssemos sós eu a teria beijado com paixão naquela hora. Mas algo me mantinha parado e não era a presença de Karina, pois neste momento eu nem lembrava da sua existência.

Comecei a suar frio de novo. Acho que este é um sinal divino, pra me avisar que algo está passando do ponto. Creio que minha respiração se elevou e ela sorriu. Num gesto delicado e sensual inclinou a cabeça e com um sorriso maroto me perguntou:

- Gostou do meu apartamento?

- Amei. Lindo. Delicado e belo como você.

Eu não acreditei que havia dito aquilo! E eu não conseguia sequer refazer, falar mais alguma coisa, desfazer, brincar, sei lá, só ficava olhando seus olhos.

- Você é sempre incrivelmente gentil. Obrigada. Depois lhe mostro o resto.

Ãh ??? Resto ? Ai... O que ela está dizendo?

- Você vai ver que trabalho primoroso o arquiteto fez no ambiente íntimo, uma divisão dos quartos inteligente e prática. Eu poderia morar só no meu quarto por meses...

Quase que eu disse: 'eu também' !!! Mas falei : "Estou louco pra ver!".

Sim, eu estava louco !!! Isso não deveria ter sido dito!

Neste instante Karina chegou até nós, como uma aparição, de repente, bem no meio da troca de olhares. Gelei.

- Joana, a Marrie disse pra mim que você fez um quarto incrível, com todos os itens que se possa imaginar pra se viver lá dentro sem ter que vir na cozinha, é mesmo ? Ando pensando em reformar o nosso. Você se importaria de Marrie me levar pra ver?

- Imagina Karina, eu mesma vou levá-la.

E sairam as duas, a 'tricotar' como fazem as mulheres, com tal naturalidade e beleza que nos deixam de queixo caído.

Dois passos e duzentas horas (eu acho) depois, Joana olhou pra trás e me perguntou:

- Você não disse que queria ver? Vamos lá !

Como ela foi falar isso na frente da Karina? Me senti traído pela minha própria quase-talvez-quemsabe-impossível amante !

E após recuperar a fala, eu disse : 'Claro!' e as segui como um cordeirinho.

Olhei pra Marrie quando passei perto dela, pisquei o olho e a pedi que viesse comigo em gestos. Marrie, minha amiga infalível, compreendeu a situação e veio me acompanhar apoiada em meu braço.

Respirei aliviado e protegido. Por um tempo.

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