VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA
Qual é o seu jogo?

domingo, 30 de outubro de 2011

Insensatez

O quarto era enorme. Uma cama king que me convidava só de pensar em quem estaria ao meu lado. Milhões de almofadas sobre ela e ali eu imagina aquele vestido vermelho mergulhado. Luzes pequenas e velas pra todo lado, flores na parede, num papel que adornava a cabeceira da cama e espelhos, em frente, em quase toda a parede da frente. Bonito e ousado, um ambiente feito para o amor...

Ao lado da cama, um móvel cheio de andares, onde se exibiam copos, taças, bebidas, balde de gelo, potes com biscoitos e bombons, e é claro, flores e velas.

Ao fundo, um pequeno frigobar, todo pintado de azul, estilizado. Uma poltrona enorme de um outro lado, ao lado de uma mesinha redonda cheia de livros, ao lado de uma estante pequena, mas também cheia de livros.

Uma porta dava passagem ao closet e ao banheiro, que escondia uma banheira redonda e totalmente rodeada de vidros belos cheios de liquidos coloridos, que não sei se era de shampoo, perfume, ou sei lá o que. E flores.

Era magnifica a beleza daquele apartamento e como trazia a minha cabeça a ideia de uma noite sensual, cheia de encantos e mistérios, e ao mesmo tempo doce, longa, deliciosa...

Karina falou e eu levei um susto que quase me traí:

- Amor, nunca vi nada tão bonito. Realmente eu moraria num quarto desses!

Senti uma dor no peito quando vi o que estava acontecendo e como eu estava ali, ao lado dela e pensando tanta coisa absurda.

Quanta insensatez da minha parte, eu que sempre havia criticdo o Zé, agora me comportava como ele. E com uma esposa tão maravilhosa quanto a minha.

Eu a abracei calorosamente e disse:

- Quer um igual ? É bonito mesmo.

Ela me sorriu suavemente, me deu um beijo delicado e disse:

- Igual não, este é a imagem da Joana. Quero um tão lindo quanto, mas diferente, que seja a nossa imagem !!! Algo que pertença a nós dois, apenas!

E me olhou de uma forma que eu imaginei que ela estivesse sacando tudo que estava acontecendo ali.

Retornamos à sala de mãos dadas e eu procurei imediatamente uma bebida, pra ver se me ocupava com alguma coisa que não tivesse ligação com tudo aquilo.
Achei minha taça de vinho, depositada na varanda quando recebi o convite ao quarto e o tomei como se fosse um copo dágua em mãos sedentas.

Ao retornar à sala, vi Karina me olhando e sorrindo. Com certeza, ela já havia percebido minha aflição. Só não sabia se ela já havia percebido o motivo. Achei melhor ficar ao lado dela, por segurança.

O jantar estava delicioso e como tudo naquela noite, exótico e diferente. Marrie me deu guarita em dois ou três foras que dei, com essa minha mania de falar sem pensar. Mas a verdade é que, sempre que isso acontecia, as duas estavam me olhando fixamente: Joana, com aquele olhar maroto que seduz e não diz nada; Karina, com o olhar carinhoso e observador, de quem diz: 'não sou trouxa'!

Mais tarde, licores, cafés, jazz no ar e uma conversa boa entre todos na sala. Parecia estar tudo calmo. Uma ótima oportunidade para sair sem deixar sinais impróprios e com o meu eixo retomado.

Celso e Cristina já haviam se despedido logo após o jantar, pois ele tinha cirurgia no dia seguinte, cedo.

Num minuto, Marrie começou a dizer que estava tonta, se sentindo enjoada, estranha. Karina levou-a para o banheiro social e Jeronimo a acompanhou. Maia já estava tão bêbado que nem tomava conhecimento do que estava acontecendo. Pelo que me lembro, ele cochilava no meio de nossa conversa e, nesse momento, ele mais que cochilava, parecia estar realmente dormindo, sentado numa poltrona enorme ao canto da sala.

Estávamos completamente sós na sala e Joana chegou perto de mim.

- Não imaginava que pudesse acontecer algo assim hoje. Se pelo menos Celso ainda estivesse aqui pra diagnosticar o que ela tem...

- Não se aflija. Karina e Jeronimo estão dando suporte. Talvez seja um pouco de bebida a mais, Marrie não é de beber muito.

- É verdade, uma vez tomamos um belo porre juntas e ela deu vexame! Mas só tinha tomado dois drinques! (risos) Eu que estava no meu quarto copo tive que tomar providências e a carreguei quase arrastada. Foi uma loucura !!

Disse isso com a carinha mais sapeca do mundo e uma gargalhada tão gostosa! Eu a peguei e segurei o seu rosto. Parei. Pensei por 10 segundos, olhos nos olhos...

- Loucura é eu estar aqui. Acho melhor ir embora.

Me levantei disposto a pegar Karina e sair.

- Espere, Marrie precisa de Karina. Não vá agora. Não vê que tudo isso aqui foi pra você?

Cheguei a me sentir tonto com a revelação. Isso sim era loucura! Não era coisa da minha cabeça apenas, ela também me queria da mesma forma que eu! Senti a excitação me dominar, o suor chegar e o coração disparar de forma indecente. Eu a olhei de volta, peguei seu rosto em minhas mãos e disse:

- Não sei o que está acontecendo, mas sei que devo ir embora. Marrie pode contar com você pra ajudá-la. Mas quem vai me ajudar? Quem vai poder domar o que eu estou sentindo agora? Joana, se eu ficar com você mais dois minutos, vou fazer uma bobagem sem volta.

Tentei sair e ela me puxou. E por um instante eu mergulhei na sua boca, doce e macia, sem folego, sem juizo...

Fugi correndo, fui ao banheiro, peguei Karina, pedi desculpas ao Jeronimo, pedi em alta voz pra Joana cuidar de Marrie, e saímos quase imediatamente.

No carro, Karina foi em silêncio até nossa casa. Ao estacionar ela me perguntou:

- O que houve? Porque saímos assim?

Não respondi. Não sabia o que dizer. Só sai do carro, abri a porta pra ela, a peguei pela mão e a levei firmemente pra dentro.

Fingi que dormi. Eu acho que ela fingiu que dormiu. O silêncio que ouvi por toda a madrugada fez as horas passarem devagar e a tristeza de não saber mais dominar meus sentimentos tomaram conta de cada segundo. E o gosto daquele beijo, eu tinha a impressão que nunca sairia da minha boca.

domingo, 23 de outubro de 2011

Vou amar...

"Se tenho companhia, um abraço a me envolver, sussurros, beijinhos, sou mais que rica, encantada, uma pessoa abençoada, poeta, afortunada.

Se tenho o amor no peito sou rica de qualquer jeito, tenho pra dar, basta aguardar a hora certa e quem mereça que eu vá abençoar.

Se não tenho nada, nem sentimento no coração, sou andarilha sem razão. Não há motivos pra lamentar a solidão. Sou casa sem conteúdo, aberração!

Vou sempre amar, independente de haver o objeto da paixão!
Ele vai ouvir meu coração e atenderá ao chamado... Na hora certa !" (CP)

Cena 8 - Por mais que eu quisesse evitar aquele olhar


A noite do jantar aconteceu, é claro. Na verdade eu não tinha nenhum desculpa que fosse justa pra não aceitar o convite, e ainda existia uma medo louco de Karina conhecê-la mais dia, menos dia e conversarem... Minha mentira poderia ficar evidente. Além do mais, eu tinha mesmo que me governar e seria mais correto enfrentar e vencer que desistir covardemente, sem sequer saber o que teria acontecido se eu não fosse lá.

E no dia D, tudo transcorreu de forma tumultuada e numa sessão de momentos tão intensos que me pareceram quase insuportáveis. Pra mim... Talvez, apenas para mim.

Não sei porque cargas dágua, Karina resolveu se enfeitar nesta noite, daquele jeito. Talvez o fato de ir a casa de uma cliente minha, de quem ela nunca tinha ouvido falar a tenha deixado esperta e se colocou tão linda como há muito tempo não a via. Simples e perfeita num vestido preto que mostrava seu corpo perfeito de forma quase sensual, ainda que levemente discreto. O perfume que eu havia dado a ela no ano anterior e que eu não me lembrava da última vez que ela o tinha usado. É, Karina se vestiu para matar e eu fiquei um certo momento a observando, encantado: como era linda a minha amada esposa e como eu a amava !!! Naquele minuto, tive vontade de abraçá-la, despir cuidadosamente aquele vestido preto, respirar profundamente aquele perfume até ficar embriagado e nos seus braços esquecer todas as bobagens que estavam me perturbando. Mas algo não me deixou mexer um único músculo. Karina percebeu que eu estava babando e maldosamente desfilou triunfal à minha frente, pegou sua bolsa num gesto leve e me olhou por cima dos ombros.

- Vamos, amor? Senão chegamos atrasados.

Me senti forte, com a certeza que eu tiraria de letra aquela noite ameaçadora.

Algum acidente na grande avenida que nos levava ao bairro onde Joana morava parou o trânsito. Ficamos quase 15 minutos estacados num determinado ponto, sem condições de sair, voltar, retornar. Meu coração começou a disparar e, de repente, eu estava suando e super nervoso. Por um instante percebi que meus nervos me delatavam. Mas eu não estava tranquilo quando saí de casa? Iríamos atrasar 15 a 20 minutos apenas e com motivo justificável. Por que este descontrole? Karina me olhava de vez em quando. Só me olhava e isso me deixava ainda mais nervoso. Situação estranha e atípica.

Quando o trânsito andou, eu já estava quase desmaiando e falando bobagens, até mesmo maldizendo o filho da mãe que não dirigia direito e esmagou o carro no container da calçada, colocando mais dois carros engatilhados à frente, vítimas do seu ato. E Karina me olhava.

Enquanto dirigia até a casa de Joana, eu procurava me controlar. Rezei e cantarolei canções idiotas só na minha cabeça. Tentei lembrar de piadas e de coisas idiotas pra ver se eu sorria.

Ao chegarmos à porta do apartamento, Karina pegou minha mão, entrelaçou os dedos, me sorriu abertamente e apertou a campainha.

Um homem de aparentes 40 anos e cabelos grisalhos rigidamente penteados veio nos atender. Quando abriu a porta nos sorriu, olhou para Karina por uns 10 segundos em silêncio total, como que magnetizado e só depois falou.

- Entrem, Joana está lá dentro e já vem.

Tive vontade de dar um soco na cara do engomadinho metido a charmoso que meteu os olhos daquele jeito na minha mulher. Odiei aquele homem na horinha em que ele a olhou.

- Roberto Maia de Albuquerque, escritor, já ouviram falar de mim? (um risinho sínico...) Mas podem me chamar de Maia, que é como todo mundo me chama na intimidade (mais um sorriso totalmente voltado pra Karina... Mais um desses e eu daria um tapa na cara dele!).

E Karina sorriu... Linda... E eu a odiei.

Não havia mais ninguém ainda além do Maia. O apartamento era totalmente decorado com flores e velas, quase alternativo, entre sofás e almofadas gigantes brancas, beges, um rosinha que eu acho que era o tal salmão e azul claro. Um ambiente bem feminino e com certeza, delicado. Não achei que fosse combinar com sangue e me contive.

A campainha tocou e Maia foi novamente atender, convidando-nos a sentar onde quisessemos. Eu o acompanhei com os olhos, de pé, até a porta.
Chegou outro casal, mais velhos, aparentavam uns 50 a 55 anos, mas muito elegantes e sóbrios. O homem me pareceu sério demais e a mulher, uma dama, encantadora, com uma postura quase real, um rosto levemente marcado pelo tempo, mas muito bonito.

- Olá Celso, como vai ? Oi Marta. Venham conhecer os amigos de Joana. Ele foi o salvador dela naquela questão que ela nos contou domingo, lembram ? Então, Celso, este é o Dr. Rubens e sua linda esposa, Karina. Dr. Rubens, este é nosso grande amigo Celso Alencar, um médico charlatão da pior qualidade e sua maravilhosa esposa, Cristina. Com certeza, a Dama e o Vagabundo (e novamente aquele risinho...).

Na verdade, os dois cairam na gargalhada, deixando-nos como palhaços ali a olhar. Ele e o tal carrancudo. Deixando-nos, não. Karina imediatamente sorriu e entrou na brincadeira.

- Muito prazer, Celso, com certeza você vai nos contar esta noite qual o segredo, não vai? Charlatões, normalmente, são ricos e conseguem manter um casamento perfeito com sua inteligência. Cristina, ele é mesmo o nobre vagabundo ou o Maia falou isso só pra nos embaraçar?

- Absoluta verdade, Karina. Mas sou eu que vou contar o segredo, pois na verdade, eu que me disfarço de Dama: sou uma fraude! - E Cristina sorriu pra Karina como se fossem amigas de longa data.

E eu calado, sofria entre a incerteza do que elas falavam e a raiva do Maia pela piada, e de Karina pela intimidade abusiva com todos !!! Ela falou do Maia como se fossem amiguinhos e ele me chamou de doutor, mantendo a distância e à Karina como se fossem amiguinhos !!!

Comecei a suar de novo e percebi que se não parasse de pensar, iria agir e poderia fazer algo realmente idiota.

Neste minuto, como que para me salvar da aflição, entra na sala uma mulher estonteante, com aqueles olhos fitos em mim, unicamente em mim. Vestido vermelho, colado, parecia a própria pele... E aquele decote... Aquele decote !!! Meu Pai do Céu !!!

- Dr. Rubens, você veio de verdade, que bom ! Tive medo que não viesse.

Acredito que falava em tom normal, mas me pareceu sussurrar ao meu ouvido. Eu acalmei na hora, sorri feito um idiota e falei:

- Imagina, eu falei que vinha não falei? Promessa é dívida. Aqui estou eu.

Não sei quanto tempo eu fiquei ali olhando pra ela, cravado naquele olhar. Deve ter sido uns 5 ou 6 segundos, mas me pareceu ter sido 'sempre'...

A campainha tocou me acortando da minha tolice. Caiu a ficha e eu corri pra apresentar Karina antes que os novos convidados chegassem e tudo ficasse muito desconcertante.

- Muito prazer Karina, seja bem-vinda à minha casa. Dr. Rubens, como sua esposa é linda !

Era verdade, mas eu simplesmente olhava pra ela, pra Joana.

Marrie e Jerônimo chegaram pra minha calma e alegria. Eu a abracei com se tivesse 10 anos que eu não a visse. Peguei Jerônimo e o chamei pra fumarmos um charuto na sacada, de forma que eu pudesse sair dali por alguns minutinhos.

Ficamos ali falando de futebol e sobre o novo sítio que ele havia comprado e todos os demais ficaram na sala com algum outro assunto que me pareceu animado demais.

Joana veio até a sacada, me deu aquele olhar de novo, me ofereceu uma taça de vinho e outro para Jerônimo. Aceitamos e falamos os três, uma meia dúzia de bobagens qualquer sobre o visual lindo que ela tinha daquela sacada.
Jerônimo pediu licença e entrou com alguma desculpa que não me recordo.

Por algum tempo, eu fiquei ali olhando aqueles olhos absurdos, sem reparar se alguém me via daquele jeito. Joana me olhava atrás da sua taça de vinho. Se estivéssemos sós eu a teria beijado com paixão naquela hora. Mas algo me mantinha parado e não era a presença de Karina, pois neste momento eu nem lembrava da sua existência.

Comecei a suar frio de novo. Acho que este é um sinal divino, pra me avisar que algo está passando do ponto. Creio que minha respiração se elevou e ela sorriu. Num gesto delicado e sensual inclinou a cabeça e com um sorriso maroto me perguntou:

- Gostou do meu apartamento?

- Amei. Lindo. Delicado e belo como você.

Eu não acreditei que havia dito aquilo! E eu não conseguia sequer refazer, falar mais alguma coisa, desfazer, brincar, sei lá, só ficava olhando seus olhos.

- Você é sempre incrivelmente gentil. Obrigada. Depois lhe mostro o resto.

Ãh ??? Resto ? Ai... O que ela está dizendo?

- Você vai ver que trabalho primoroso o arquiteto fez no ambiente íntimo, uma divisão dos quartos inteligente e prática. Eu poderia morar só no meu quarto por meses...

Quase que eu disse: 'eu também' !!! Mas falei : "Estou louco pra ver!".

Sim, eu estava louco !!! Isso não deveria ter sido dito!

Neste instante Karina chegou até nós, como uma aparição, de repente, bem no meio da troca de olhares. Gelei.

- Joana, a Marrie disse pra mim que você fez um quarto incrível, com todos os itens que se possa imaginar pra se viver lá dentro sem ter que vir na cozinha, é mesmo ? Ando pensando em reformar o nosso. Você se importaria de Marrie me levar pra ver?

- Imagina Karina, eu mesma vou levá-la.

E sairam as duas, a 'tricotar' como fazem as mulheres, com tal naturalidade e beleza que nos deixam de queixo caído.

Dois passos e duzentas horas (eu acho) depois, Joana olhou pra trás e me perguntou:

- Você não disse que queria ver? Vamos lá !

Como ela foi falar isso na frente da Karina? Me senti traído pela minha própria quase-talvez-quemsabe-impossível amante !

E após recuperar a fala, eu disse : 'Claro!' e as segui como um cordeirinho.

Olhei pra Marrie quando passei perto dela, pisquei o olho e a pedi que viesse comigo em gestos. Marrie, minha amiga infalível, compreendeu a situação e veio me acompanhar apoiada em meu braço.

Respirei aliviado e protegido. Por um tempo.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cena 7 - O que devo dizer? A verdade?

Marina chegou na lanchonete onde Débora e Sebastião a esperavam. Ela ainda estava nervosa e havia atrasado mais de meia hora.

- Marina, nossa você demorou demais, já tava a fim de ir embora. Caramba amiga, você chama a gente, eu sai do trabalho mais cedo pra vir te ver e você demora desse jeito, que saco!

- Pô amiga, não briga comigo não que eu tô uma pilha! Já basta minha mãe me perseguindo, querendo tomar conta da minha vida e vem você brigar comigo. Se demorei foi porque tive que demorar, desculpa, mas não deu pra chegar antes. Só lamento.

- Tá, passa. Vai, me diz o que tá acontecendo, vai. Porque você tá assim? Ah, esse é o Sebastião, meu amigão. Pode falar perto dele de boa, que ele é `minha melhor amiga` (rs).

- Oi Sebastião, prazer. Nem sei se na verdade é um prazer pra você porque a coisa é feia e você já vem me conhecer num dia assim, que eu estou um caco.

- Nem liga, finge que eu nem tô aqui. Não se preocupe que eu sei bem o que é estar em um dia ruim... Mas de qualquer jeito, muito prazer também. A Débora fala de você todo tempo. Eu tava mesmo querendo conhecer você. Fico quietinho aqui.

- Ai gente, até bom mesmo ter mais alguém comigo, pois eu posso levar minha amiga à loucura, quem sabe assim você nos salva... (e sorriu nervosa.

- Tá amiga, mas fala vai, você tá nervosinha demais. Melhor falar que melhora.

- Gente, eu tava tentando, juro! Tava tentando esquecer o Pedro. Aí saí pra ir no cinema ontem, pra ver um filme desses bem nada a ver, pra ver se tirava o Pedro da minha lembrança. Fui sozinha pra não ter que conversar com ninguém mesmo. Aí, lá dentro do cinema, eu vi a broaca da noivinha do Pedro, umas 3 carreiras abaixo da minha cadeira, no maior grude com um carinha que eu nunca tinha visto! Daí não resisti, desci pra cadeira de trás deles, bem no silêncio, tomando o cuidado pra ela não me ver. Amiga eu vi cada coisa que nem te falo.

- Claro que fala amiga, me conta !!!

- Eu não ia falar nada, mas depois deste prefácio, você vai ter que contar o primeiro capitulo, o segundo e até onde você leu este `livro`!!!

(Sebastião gesticulava e ria louco de curiosidade, de tal forma que acabou fazendo todos rirem do seu jeito)

- Tá bom, não sei como você consegue me fazer rir numa hora dessas...

- Meu amor, fazer rir quem está triste é minha missão no mundo !!! E a sua missão é contar os detalhes mínimos deste babado forte!

- Tá bom, vamos lá. Primeiro, eles se beijaram tipo por horas, assim, língua é pouco, era uma melação daquelas que a gente chega, sente esquentar lá em baixo. Teve uma hora que eu vi que ele se virava pro lado dela e eu me coloquei de forma que eu visse entre as cadeiras. Aí eu vi as mãos dele chegando pra cima dela e literalmente eu vi ele colocar as mãos dentro da blusa dela. Gente, ela gemia ali, no cinema! Eu acho que ela tava se masturbando porque o som que eu ouvi era por aí... Tosco cara, tosco. Ficaram assim bem uns 40 minutos no esfrega, esfrega. Depois cada um ficou quietinho, escorregaram na cadeira e foi silêncio total... Acho que eles deram uma boa gozada e ficaram ali mortos e disfarçando... eu tava quase gritando de raiva. Daí, resolvi sair discretamente antes de terminar o filme pra ela não me ver. Sem noção, gente. Achei que isso não acontecia de verdade dentro de um lugar que tem um bando de gente. Mas o que me deixou morta é que era ela, a garota que me tirou meu Pedro, que fala pra ele que tá esperando um filho dele, e tava se agarrando igual uma puta dentro do cinema com um carinha totalmente desconhecido. Já pensaram se esse filho não é do Pedro ? E eu? Conto pra ele? Ele iria acreditar em mim? Será que ele não merece bem esse chifre? Mas será que se ele soubesse ele não terminava com ela e quem sabe, voltava pra mim?

- Ah amiga, até agora você tava bem, mas vai querer este filho da mãe de novo? Se valoriza amiga!

- Olha, peraí, deixa eu tomar fôlego!!! (disse Sebastião) Caraca, que demais!!! Desculpa, não é isso, não curti... É que eu tô de cara... E sem fôlego mesmo !!! Mas concordo com a Débora, nada a ver você querer esse cara de volta.

- Mas eu ainda adoro ele, gente, não consigo esquecer. Querem saber? Eu até gostei de ver que ela era uma vadia, tanto pelo fato de ele levar um chifre, e eu confesso que foi como se eu pudesse me vingar dele, mas também porque ele poderia ficar livre... Confesso, pronto, falei. Por isso eu tô ficando doida, que eu nem sei o que sinto e o que eu quero... Quero ele, queria não querer... Mas tive vontade de correr pra perto dele na hora e fazer a mesma coisa que os dois fizeram no cinema, mas com o Pedro.

- É, confesso que eu queria fazer isso também... Não com o Pedro, é claro !!!

Os três caíram na risada.

- Vamos combinar, nós três queríamos viver esta cena, né!
(Sebastião falou, numa risada estérica)

- Principalmente com um ilustre desconhecido !!!
(disse Débora)

- Qual é amiga? Você queria mesmo transar num cinema com um cara que nunca viu na vida?

- Ah amiga, uma coisa é o que é certo. Outra coisa é fantasia. Eu nunca pensei nisso, mas agora que você me contou, até senti vontade de ser ela, confesso. Não acho que teria coragem um dia, mas que nesse minutinho eu pensei nisso, ah pensei! Fala aí, se coloca no lugar... Não fica excitada com a idéia?

Marina parou de rir. Parou pra pensar. De repente ficou séria e olhou pra Sebastião que lhe sorria mordendo os dedos, como quem daria a vida pela resposta. O coração começou a disparar e pela primeira vez na vida, pensou em sexo sem ver o corpo de Pedro envolvido na cena. Lembrou do carinha do cinema, nas suas mãos entrando no seu decote e se viu quase levando as próprias mãos entre as pernas. Durou mais ou menos uns 30 segundos tudo isso, mas teve a impressão que estava há muito tempo sentindo aquilo e de repente, caiu numa risada escandalosa. Parou tudo!

- Débora, que é isso que você colocou na minha cabeça amiga? Ufa... Caramba, esquentei!(rs)

- Marina, acho que você começou a sarar agora, neste minuto! Sarar desta praga chamada Pedro!

Parada para refletir no. 2


...
Quando o amor me pega, sou uma estrela, anjo e raiz. Me apego ao que creio e desamo o que não vejo.

Sinto a força do que desejo e me entrego ao que me fascina.

Me controlo quando preciso, no papel de mulher feita; me derramo quando o amor me chama, assumindo a alma de menina.
...

Do texto "Alusões II" de Cássia Portugal.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Cena 6 - Duas irmãs... Irmãs ????

Nenhuma das duas tinha razão, mas nunca deixavam por menos. Se uma falava que preferia azul, a outra respondia que o azul a deixaria vulgar pois chamaria muita atenção em sua pele tão branca. A outra por sua vez, respondia com um sorriso maldoso: ‘É, inveja quando não mata aleija! Pelo menos eu chamo a atenção enquanto você, amarelada com o tempo e com sua pobreza de espírito, passa por todo mundo sem sequer ser notada!’.

Bobagem! Eram lindas as duas, mas feias por dentro em sua luta marginal para derrubar uma à outra. Briga originada na infância, no ciúme doentio das duas pelo colo do pai que pouco dava atenção a ambas. Cresceram, mas isso não mudava.

Desencadeava-se então a guerra entre granadas e canhões. Bastava motivo tão fútil para que se fizesse então um vendaval em terras secas de doçura e de generosidade.

No ano anterior tinham chegado ao absurdo de dividirem, ou melhor ‘tomarem’ o mesmo namorado. Pode até parecer ironia do destino. Mas não. Fora mesmo proposital!

Após conhecer Paulo, Ana encantou-se e deslumbrou. Não tardou a desafiar Sara com sua felicidade. Nada falava sobre o dito cujo, nem nome, nem definição de seus traços, até mesmo para garantir a deliciosa sensação de provocar a imaginação da outra ao máximo.

Mas a experiente e perversa Sara descobriu com facilidade: nome, endereço, telefone, gosto, cores, filme preferido e o gosto da boca! Que ardilosa mulher!

Preparou o golpe certeiro, fez-se conhecer de forma impressionante, num dia em que se preparara para ‘matar a um só golpe’! Encantado com sua beleza, charme e cultura, pois que falava sobre qualquer assunto com desenvoltura, Paulo caiu na cilada e se deixou levar, sendo tão tolo e inocente que até lhe dera ao final da noite, seu cartão com o telefone para que ela, caso sentisse saudades, ligasse pra ele. É certo que nesta noite, Sara provocou-o ao máximo, sem deixar que ele lhe tocasse intimamente. E despediu-se com um rápido, único, porém ardente beijo!
No dia seguinte chegou perto de Ana com aquele mesmo sorriso de mulher apaixonada, porém, um pouco mais felina: havia um ‘que’ de vitoriosa!

Ana ficou com a pulga atrás da orelha, claro. Nunca vira tanto frescor, nunca sentira a irmã tão bela ou leve! Aquilo a agredia com o ardor de uma ofensa. Até porque reconhecia em seus olhos o brilho do desejo!

Na hora em que a irmã foi para o banho, lá pela tardinha, após engolir horas de esnobe felicidade, Ana foi até o quarto de Sara e vasculhou a sua bolsa. Remexeu tudo e nada encontrou. Foi até o armário e procurou o casaco com o qual Sara tinha saído na véspera. Após verificar frustrada, que nada iria descobrir, arriscou-se a explorar o celular da irmã.

Foi quando Sara saiu do banheiro de uma vez:
- Está procurando algo que lhe pertença?

Ana engasgou com o próprio ar, começou a tossir desbragadamente, sentou-se na cama e fez uma cena digna de um Oscar.

Sara já acostumada às cenas dramáticas da irmã ignorou, abriu a porta e convidou:

- Por favor, vá tossir em seu quarto, porque aqui não há nada que lhe interesse!

E quando Ana saia, já de nariz em pé (e sem tosses), finalizou:

- Ah, talvez você queira saber onde fui ontem, não é? Imagina menina, que fui ao Império, com uma amiga. Jantamos, dançamos e paqueramos muito! (risos) Conheci um homem fascinante, ele me tirou pra dançar, me propôs um drinque, me seduziu e acabamos passando a noite juntos! Eu estou nas nuvens e ele, está de quatro! Acho que estou namorando! Você não fica feliz?

Ana sentiu o sarcasmo e desconfiou. Sara não era de lhe contar o que fazia ou não em suas noitadas, menos ainda em seus romances. Alguma coisa tinha ali!

- Claro que fico feliz! Tomara que ele te peça em casamento e te leve embora desta casa o mais cedo possível! Só tenho pena do coitado, não sabe onde está se metendo! Posso saber o nome do meu futuro cunhado?
- É óbvio que pode. Paulo. Paulo de Souza Sobrinho. Advogado, alto, moreno, magro, sexy, lindo! Adora música clássica e rock metal! Não é interessante essa mistura?

Bastou. Ana quase desmaiou, desta vez, de verdade.
Como podia Paulo tê-la enganado assim? Como podia trocá-la por aquela ali? Cinco anos mais velha! Uma bruxa maquiavélica que não merecia nem sua atenção, que diria seu amor!

Recompô-se como pode, disfarçou quanto à tonteira, alegando ser o período das regras, deu parabéns à Sara e notou no seu semblante, um riso de canto de boca, que foi a prova cabal : ela sabia o que estava acontecendo! Não havia sido uma armadilha do destino e sim, uma trapaça da sua bela irmã mais velha!



No caminho do seu quarto bolou todo o plano...

Cena 5 – Depois que o tempo passa a gente entende ou desentende as coisas...

Leticia no computador não tirava os olhos do vídeo e tentava por tudo entender o texto que recebeu da amiga poeta, que sempre lhe mandava coisas acima de usa idade ou maturidade. Incrível a arte de se expor daquela menina que parecia ser o que ela mesma queria ter sido, ou tentou ser...

Na época que ela era adolescente não lhe era permitido tanta ousadia, mas ela sabia que sentia necessariamente as mesmas coisas, era como se a menina a fizesse voltar aos 20.

A filha corria de uma lado pro outro na casa e deixava Leticia meio zonza pois queria se concentrar...

- Marina, sossega, o que está acontecendo?
- Nada mãe, nada...
- Você já passou aqui 100 vezes agoniada, posso lhe ajudar?
- Não mãe, já falei, me deixa...
- Ôxi, que isso filha? Eu to oferecendo ajuda... só isso... Não quer? Tudo bem... Mas para de andar pra lá e pra cá !
- É proibido andar em casa agora, é ? Caraca, que saco...

‘Tem hora que dá vontade de encher de porrada’, pensou Letícia... ‘ainda bem que passa com 2 segundos... Essa menina tá me saindo... Imagina se eu falasse desse jeito com a minha mãe, nem sei se me ficavam os dentes...’ – Nisso que Letícia ficou estatelada pensando, Marina passou mais umas 3 vezes pra lá e pra cá.

As vezes Letícia era enérgica, mas ultimamente não tinha mais paciência. Marina já tinha 19 anos e mais parecia uma adolescente de 12, cheia de energia, mau humor e quilos de maquiagem na cara, além dos cabelos alisados na chapinha, quase ficando verdes de tanta tinta...

Enquanto namorou o Pedro, até que deu sossego pois ele a controlava, mas achava que a filha também era uma bonequinha de luxo nas mãos do rapaz, que fazia o que queria dela e de uma hora pra outra, simplesmente terminou tudo, começou a namorar com outra, e já tava até noivo da menina, que diziam estar grávida dele. Sorte da Marina de escapar dessa... Mas ela parecia que tinha pirado totalmente. Isso tinha acontecido há 5 meses, e ela estava simplesmente insuportável.

Apesar de ter pena da filha que ainda sofria, ela sabia que já tava na hora de mudar as coisas e ajudar Marina a recomeçar sua vidinha. Mas Marina simplesmente não deixava e fazia desaforo todo tempo. E Letícia tinha tantas outras atribulações e tudo estava simplesmente se misturando nas suas emoções. Difícil...

- Marina, vamos lá minha filha, vou tentar mais uma vez. Me diga o que precisa e eu te ajudo, OK? Você vai se atrasar pra faculdade.
- Eu não sei !!!! Eu não sei !!! Se for ficar falando pra vc vou perder mais tempo ainda... Ah mãe, me deixa pelo amor de Deus!

10 segundos de silêncio...

- OK. – disse Letícia. Apenas se voltou pro computador e retornou ao seu texto.

Marina deu uma parada de alguns segundos, olhou a mãe, ficou meio sem saber o que fazer, disse uns 3 palavrões baixinho, e continuou a correr.

domingo, 12 de junho de 2011

Parada para refletir no. 1


Tudo que vem do fundo do coração, só tem a intenção de esclarecer mesmo que traga confusão. Acredite e não procure compreender sempre...

Não somos feitos necessariamente pra nos entendermos: o homem e a mulher. Somos feitos pra nos amarmos, inexplicavelmente e sem perguntas ou razões.


Cássia Portugal

Cena 4 - Saia Justa

Fazia muito frio naquele dia, e eu não podia ficar até tarde no trabalho, porque Miguel havia me pedido para levá-lo na competição de natação da qual ia participar. Nadava muito bem para um menino de seis anos e era sua segunda competição. Na primeira tinha ficado em quarto lugar entre os oito que concorriam, e me disse que desta vez ia tirar o segundo. Só não podia tirar o primeiro, "porque o Marquinho é bom demais, é o melhor de todo o mundo, a gente não chega nem perto dele, Pai, mas eu vou treinar muito e quando tiver sete anos que nem o Marquinho, eu vou ser tão bom quanto ele. Ano que vem vou ser primeiro lugar!". Eu tinha orgulho do meu filho e da forma como ele via as coisas. Precisava estar até 16:00h em casa, pegar o Miguel, correr para a academia. A competição começava às 17:00h.

Eram 15:30h, e eu encerrava um parecer de um processo da Companhia de Mineração, que tinha que estar pronto até o dia seguinte. Já haviam passado duas semanas, desde que ela veio ao meu escritório e eu já lembrava dela como se tivesse sido apenas um sonho. No momento em que terminava uma idéia brilhante com a qual eu sentia que ganharia a razão contra qualquer argumento, Luíza entra no escritório e diz:

- Desculpe, Dr. Rubens. Sei que o senhor não quer ser incomodado, mas tem uma moça aqui fora insistindo em falar com o senhor. Disse que tem certeza que o senhor pode dar um tempinho pra ela. O que eu faço?

- Ora Luíza, pergunte o nome da moça, veja o que ela quer, se não for importante, arranja uma desculpa e despacha! Estou muito ocupado pra atender bobagens.

Dois minutos depois ela voltou pra trazer a notícia que eu não precisava ouvir: Joana era o nome da moça.

Era "ela" que insistia em falar comigo. Meu Deus! Não estava eu quieto no meu canto? Que merda!

- Peça a ela pra esperar cinco minutos e depois a mande entrar.

Precisava de tempo. Tinha que pensar o que dizer e como me posicionar pra não ficar totalmente a mercê dos seus olhos. Fui ao banheiro, vi se meus dentes estavam limpos, olhos, nariz, boca, que droga! Pareço uma mocinha! Voltei correndo pra sala, analisei o ambiente e vi que se me mantivesse atrás da minha mesa, ficaria imune ao menos, às suas pernas. Me instalei ali. Por nada desse mundo sairia daquela posição. O que iria dizer? Era fácil: bastava ser cortês, e perguntar a respeito do seu problema com a tal dívida. Só que enquanto eu divagava sobre tais questões, senti uma sombra que me estremeceu e quando olhei pra cima, lá estava ela em pé, em frente a minha mesa, olhos fixos em mim com um sorriso de propaganda de creme dental. Ah , eu estava realmente me sentindo uma "mocinha", e daquelas virgens, das que tem medo de engravidar com beijo na boca. Vontade de chorar e dizer: "Porque você não vai embora e me deixa em paz, hein?". Ela ali, linda, só me olhando, sem nenhuma culpa:

- Olá Dr. Rubens. Que prazer revê-lo! Desculpe se atrapalho, mas prometo que não lhe tomo mais que cinco minutos.

Quase disse pra tomar a tarde inteira, que ela mandasse que eu obedecia, que minha hora não existia sem o prazer da sua presença. Mas eu só podia estar louco!!!

- O prazer é todo meu. Porque não se senta? Cinco minutos eu posso lhe dar sem sombra de dúvidas.

- Aqui? Porque não sentamos lá na salinha? Não gosto de conversar perto do telefone. Tenho sempre a impressão que as secretárias ficam ouvindo a conversa da gente. Se você não se importar, é claro.

Pensando nessa teoria, disse que concordava e quando dei por mim, estava lado a lado com ela, no sofá de dois lugares. A saia era outra, preta, mas tão maravilhosa quanto a anterior. As pernas com meias finas, pretas, transparentes, sapatos de salto, scarpin de pelica, lindos. Blazer preto sobre uma camiseta fina, azul clara. Neste dia, percebi o detalhe que o Zé queria que tivesse visto da outra vez em Marrie: o decote. Pouco decotada, a blusa tinha uma certa transparência, que me permitia imaginar o que aquela sombra sutil sugeria – soutien preto, com rendas, que em um certo segundo fugiu dos limites permitidos de sua blusa, e olhou pra fora por um milímetro. Quase engasguei nesse momento. Pelo menos, pude acordar para o fato que estava sendo indelicado e olhando na "direção errada" por diversas vezes. Logo eu que sempre fui tão discreto com todas as minhas amigas.
Mas, eu não tinha jurado que não sairia da minha mesa?

- Vim lhe agradecer por sua orientação. Criei coragem e enfrentei a todos que me prejudicavam de alguma forma. Tratei-os como deviam ser tratados. É verdade, que ainda há alguém que me ameaça, mas, não estou com medo. Estou aliviada de ter feito o que era certo. Já recebi até uma pequena parte do dinheiro. Só dez por cento, mas, já é um começo (um segundo de silêncio e os olhos todos os segundos fixos em mim). Queria lhe convidar para um pequeno jantar que vou dar em minha casa, para poucas pessoas, uns quatro casais. Marrie irá, é lógico. Sexta-feira próxima, às 21h (começou a falar cada vez mais lento). Meu aniversário. Você vai?

Era tão objetiva na forma de falar, mas eu não conseguia nunca saber o que havia nas entrelinhas. O que significava "quatro casais"? Será que eram eu, ela e mais três? Ou seria eu e minha esposa, ela e o marido ou namorado, e mais dois? Me lembrei então, que não havia cogitado até aquela hora, o fato de ela ser casada ou não. Mas, é claro que era, pois se ela tinha um filho, ela mesma havia me falado dele. Mas, isso não queria dizer nada. A maior parte das pessoas hoje em dia é separada e os filhos não evaporam por causa disso.

- E então, Dr. Rubens? Posso esperá-lo na sexta?

Nosso Senhor Jesus Cristo' Tenho que dizer alguma coisa! Vou perguntar, senão vou acabar dando mancada.

- Escute, não quero ser indelicado, mas, bem, é que sou casado e o convite é para nós dois?

Para minha surpresa, ou meu desespero, ela ficou por dois ou três segundos calada, me olhando. Não sabia se isso significava surpresa, ou se ela só estava pensando. De qualquer maneira, durante pouco tempo, me senti orgulhoso e me dei ao luxo de imaginar que ela estava interessada em mim, e que eu havia lhe proporcionado com minhas palavras a maior decepção da sua vida. Lógico que nessa altura do campeonato, eu me igualava a ela em poder. Não tinha um olhar 43, mas, tinha palavras fulminantes e dominava através delas!

- É claro que o convite é para os dois. Não seria indelicada ao ponto de tirá-lo de casa sem sua mulher. Não quero criar conflitos (riu, meio que sádica, eu acho...). Terei o maior prazer em conhecê-la. Deve ser uma ótima pessoa. Senão, não teria um marido como você. Então, está confirmado?

Seria o cinismo, um atributo de quem domina? E, onde estava a minha igualdade de poder? Cadê o homem cheio de poderosas palavras? Idiota, de novo! E agora? Será que eu vou? Porque iria submeter Karina a esta situação? Mas, como poderia sair dessa de maneira polida? Por mais que eu quisesse ver em suas atitudes, um sinal da sua atração por mim, não poderia insinuar nem de leve que ela estivesse se comportado mal, ou de forma intencional para me atrair, ou que tudo que se passava na minha mente, fosse verdade. Provavelmente, eu estava carente de alguma coisa e jogando naquela mulher toda a culpa, só porque ela era um bocado atraente, e me fazia mal à circulação sanguínea e ao aparelho respiratório.

- Claro, claro. Desculpe a indelicadeza. É que, não sabia se, você sabia que eu era casado, e às vezes, você poderia pensar num número limitado de pessoas e, eu não queria aparecer com ela lá sem ter falado sobre isso e, é muito chato, às vezes a gente faz um jantar com número certo de pratos à mesa, contrata um buffet só para oito pessoas e vem nove, etc, etc, eu ...

- Fique tranquilo, Dr. Rubens (disse rindo da minha forma atrapalhada de me explicar). Está tudo correto. Não estou contratando um buffet. Na verdade, adoro cozinhar e não perco uma oportunidade pra mostrar meus dotes culinários. Não se preocupe. Mais um lugar à mesa, não é problema. Quem sabe, será mais uma nova amiga e até mesmo, mais uma fã para os meus quitutes. Gostam de frutos do mar?

- Adoro, quer dizer, adoramos!

Agora estava claro. Pela primeira vez, eu tinha certeza de alguma coisa que vinha dela. Ela não havia pensado na minha esposa. Talvez não soubesse que eu era casado. Mas, isso não importava. Ela queria a minha presença Só restava saber se ela tinha algum parceiro para esse jantar.

- Por acaso, vai mais alguém que eu conheço? (perguntei, como se ela soubesse algo sobre o meu círculo de amizades).

- Só Marrie e seu namorado. Como é mesmo o nome dele? Ah, Jerônimo! Sempre confundo esse nome. Quer dizer, eu creio que você só conheça a Marrie, Mas, você vai gostar das pessoas que vão. São pessoas muito queridas, um bom papo, gente bonita e inteligente. Talvez aumente em uma ou duas pessoas, mas, não passará de dez. Aqui está o endereço. Aguardo você. Quer dizer, você e sua esposa. (riu novamente, daquele jeito). Como é mesmo o nome dela?

- Karina. Pode esperar. Não costumo me atrasar.

Despediu-se, com os olhos malditos fincados nas minhas pobres meninas dos olhos.

Pegou a bolsa, e sorriu abertamente. Fiquei deslumbrado. Então, se foi.
Após uns cinco minutos, quando consegui perceber que estava de pé, sorrindo pra ninguém e olhando o chão como se houvesse algo lá, acordei e olhei para minha mesa. Como que por encanto, me deparei com o relógio e o que foi que vi? A hora: eram 16:00h.

Miguel! Eu estava atrasado e meu filho me esperava, provavelmente ansioso, olhando pela janela. Da minha casa até o escritório, eram 15 minutos de carro. Peguei o telefone e liguei pra casa.

- Alô, D. Ana? O Miguel está pronto? Fique atenta, por favor. E diga pra ele que eu me atrasei, mas que tudo vai dar certo, que já estou chegando. Quando estiver perto eu ligo de novo e a senhora desce com ele e me espera na portaria, ok? Obrigada.

Foi uma viagem longa. Como eu poderia esquecer do compromisso com meu filho pra ficar dando conversa pra uma mulher qualquer, que não é nada, nada! Que droga de pai que eu sou? Isso não pode dar certo. Está errado. Amanhã, vou ligar pra ela e desmarcar esse jantar. É melhor ficar longe dessa mulher. É, é isso. Amanhã vou ligar, e encerro esse assunto de vez.

E a longa viagem seguiu nesta mistura de dúvidas e medo!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cena 3 - Como se encara o que não se pediu na vida?

No dia em que Letícia chegou na faculdade, estava chovendo. Chovia tanto que a preguiça era maior do que a ansiedade em começar. Havia batalhado tanto pra estar ali, mas não era o dia em que queria começar algo tão importante.


A tarde havia sido tensa. Seu pai, sempre ligado em algo tão pessoal, nem mesmo havia pensado que aquele era um dia tão importante pra ela. Criara confusão pela comida, pela forma como ela se vestia, e achava defeito em tudo!

Sua calça jeans que mostrava o rego, não era um ato de rebeldia. Antes, era um gesto aliado, das pessoas de sua época, daqueles que pensavam igual sobre o mundo, a política, a economia sofrida da época e sobre o amor. As camisas largas, que lhe impediam qualquer traço de feminilidade, significava liberdade.

Para ele, significava falta de gosto e sugeria uma possível tendência ao lesbianismo. Ele tinha pavor desta possibilidade e a sensação que ela tinha é que teria de chegar um dia grávida em casa, para que ele parasse com aquilo! Mas, com certeza, ele iria apenas, trocar o foco da briga. Passaria a chamá-la de inconseqüente e fácil.

E depois de toda a tarde confusa, a chuva. Torrencial.

Era pra ser um dia de libertação total. Mudara toda sua vida. Ia conhecer novas pessoas e começar a ver um novo mundo. Mas o dia estava cinza e sombrio. Parecia estar colaborando com as idéias de seu pai.

Era tão estranho como uma pessoa tão séria e cheia de preconceitos, poderia ter amantes. Ele sempre as teve. Às vezes, casos sérios. Às vezes, furtivos e curtos. Mas nem se preocupava em esconder. Era revoltante tanto cinismo.

Um dia ela os viu: ele e sua nova companheira. Fingiu não ver, mas viu. Ele sabia que ela havia visto. Á noite, foi ao seu quarto. Estava pálido e comedido nas palavras.

Seu diálogo foi tão patético quanto tendencioso:

- Você foi hoje lá na pracinha não foi ?
- Fui.
- O que você acha que viu ? Não é o que você pensa.
- Se você está preocupado, deve ter algum motivo pra isso não?
- Claro, não quero que você pense mal de mim, seria errado.
- Seria errado eu pensar, ou seria errado o que fez?
- Não fiz nada.
- Não, não fez. Não teve o cuidado em proteger minha mãe do comentário alheio, da possibilidade de alguém vir até aqui contar, de fazê-la sofrer! Desfilou de braços dados, como namoradinho com aquela mulher, pela pracinha por um tempão!

Naquela hora, Letícia quase chorou. O peito pedia, mas a raiva não lhe permitia. Segurou o sentimento na garganta, olhou firme naqueles olhos calados e espantados.

- Não vai falar nada ???
- Não tenho o que dizer. Você não entenderia.
- Tente. Quem sabe, eu não te surpreendo.
- Você sabe que há muito tempo que eu e sua mãe não temos mais uma vida em comum.
- Não, eu não sabia disso. Sei que ela ama você demais e que tira seus sapatos todo dia quando chega do trabalho e traz o seu chinelo, depois corre pra fazer sua janta. É só isso que eu sei.
- Minha filha, a gente não se ama mais há tempos.
- Você não ama. Ela te idolatra!
- Mas agora eu encontrei uma pessoa. Eu estou apaixonado. Ela me completa.
- Então vai viver com ela !!! Ninguém te prende aqui ! Sou adulta e sei me virar. Já trabalho e sou boa companhia pra minha mãe. A gente se basta.
- Falei que você não entenderia.
- Entendo sim pai. No coração ninguém manda. Mas não acho justo você desfilar com outra em pleno dia, no centro da cidade, onde todo mundo que te conhece e conhece a mamãe! Pra que isso ?
- Ela não agüentaria a separação.
- E você acha que a humilhação ela agüenta ???

Ele se calou e se retirou. Sem argumentos. E ela ficou com a sensação de derrota. Não ia adiantar. Ele não tomaria nenhuma atitude nunca!


Haviam se passado dois anos, e ele ainda estava lá. E ainda desfilava pela cidade com a mesma mulher. Ela tinha até conta no nome dele na mercearia. Ninguém mais falava do assunto na cidade. Já se tornara público e até normal.

E sua mãe, continuava a trazer os chinelos. Calada e sorrindo.

Quando Letícia conseguiu encontrar sua sala na faculdade a aula já tinha começado. Morreu de vergonha. Todo mundo olhou pra ela como se estivesse cometendo um crime com o atraso. E o cabelo molhado, a roupa molhada... queria ter chegado bonita, impressionar a todos.

No fundo da sala um rapaz e uma moça sorriram pra ela. Parecia que lhe devolviam a coragem. O rapaz mostrou uma cadeira vazia ao lado dele. Pediu licença e entrou.

No intervalo conversaram. Ele se chamava Jorge e também não conhecia ninguém, além da outra moça. Escrevia versos e sorria um sorriso tão franco e bom que ela não conseguia para de olhar pra tantos dentes brancos.

- Como você se chama ?
- Letícia, e você?
- Jorge, mas pode me chamar de Jorjão que é como meus amigos me chamam.

Ganhava um amigo naquela hora. Lindo, alto e sorridente. A moça que também a tratara como gente se aproximou depois que já conversavam há uns dez minutos. Ela chegou e o beijou na boca.

Engraçado o misto de sentimento que em um único momento lhe veio: gratidão e simpatia pela criatura gentil e revolta por aquela atitude tão íntima com o seu novo amigo. Eram namorados e isso mudava tudo. Seus únicos possíveis amigos, ficariam juntos e longe dela. Não iam ficar lhe dando atenção em vez de aproveitarem o pouco tempo que sobrava entre as aulas. Ela seria a vela, depois de ser única por dez minutos.

Mas uma vez, havia alguma chuva no seu dia.E além daquele leve ciúme (pelos dois), havia a sensação de estar sozinha. De novo. Mas a aula recomeçou e tudo tinha que voltar ao normal.

Durante a primeira semana não conseguiu se entrosar com mais ninguém. Tinha vez por outra a companhia de Jorjão e de Maria por cinco minutos.

Aos poucos foi conhecendo outros que não haviam a rejeitado como pensara. Na verdade sentiam o mesmo que ela. Todos estavam chegando a um lugar novo, cheio de incógnitas, sem conhecidos.

Havia músicos, poetas, filósofos de botequim, estadistas, traumatizados, comediantes, pessimistas, presos políticos, marginais e sábios. Todos o seriam apenas no futuro, mas já eram candidatos aos cargos. Isso podia-se ver pelas risadas, piadas, discursos e silêncios.

Tudo se tornou mais leve e estranhamente atraente. Em dois meses, Letícia conhecia todos e já tinha uma dúzia de bons parceiros de estudo e de boteco.

Seu pai odiava as sextas-feiras, em que ela pegava o carro dele e voltava pra casa às duas da manhã, perfumada de cerveja e cantarolando canções de protesto. Ela, amava tudo aquilo.

Mariano, o poeta louco e insano. Joana, a menina mais triste da turma, mas que sempre acompanhava todos os programas. Idalina, que comandava tudo que se fazia em grupo, João Pedro, que paquerava todas elas e nunca ficava com ninguém, Jorge, Maria, Ana Lúcia, que não sabia o que fazia no curso de Artes pois queria mesmo era ser bailarina, Beto, que insistia em fotografá-la nua, mesmo que ela sempre resistisse aos seus encantos.

Victor Hugo, o tímido, delicado; Luíza, a menina grande e forte, que abria as latas de azeitona e tomava pinga pura; Heitor, o músico e Gabriel, o anjo louro, que se fazia tão amigo, mas não lhe tirava os olhos.

O tempo foi transformando aquela turma em família e em algumas situações isso parecia mais forte do que aquela outra, de laços consangüíneos.

Nem pai, nem mãe conseguiriam quebrar tal união. Havia encanto e cumplicidade em seres tão diferentes e interiormente, tão iguais.

Seu pai nunca entendeu aquela relação tão absurda. Azar dele que nunca fez faculdade. Azar dele que pautou sua vida em enganos, medos e na falta de caráter. Infelizmente, azar também de sua mãe, que pautou sua vida na vida de um homem, que sem amor nem consideração, ainda assim lhe fez escrava, morta da virtude de mulher, inexistente.

Numa dessas sextas, Vitor Hugo chegou triste no boteco onde a turma toda já bebia há 1 hora. Chegou com uma cara daquelas... não queria muito conversar mesmo. Letícia tava de olho e resistiu um tempo até se sentir muito incomodada e se sentou perto dele:

- Que foi Vitor, que cara é essa? Te conheço, não tá bem, né?
- Vou embora Lê, tenho eu ir.
- Embora? Você chegou tem meia hora, se não quiser conversar tudo bem, desculpe forçar.
- Não, não é isso... Vou embora de vez. Preciso ir... pra sempre.
- Ochi, vai embora pra onde? Mestrado? Quando? Seus pais vão mudar?
- Vou sozinho, pra longe, não sei mesmo pra onde, mas vou ter que ir.
- Tá, mas o que tá rolando?
- Tô guardando comigo tem tempo, não aguento mais, preciso ficar só.
- Vitor, você tá me assustando... Que aconteceu ?

Vitor levantou, deu um beijo em Letícia e falou que tinha que ir no banheiro, que tava apertado.
Não voltou. Aproveitou e se mandou sem completar.

No dia seguinte, mandou uma mensagem no celular da Leticia.
“Preciso te ver, me encontra às 17h no boteco lá do Pipo. É sério. Beijo. Vitor”

Cena 2 – a difícil arte de ser íntegro

Cheguei às 19:30hs, quando já estava com a respiração absolutamente sob controle. Passei numa delikatessen perto de casa e comprei 2 garrafas de um vinho que adoro, pois não queria tomar cerveja, e algumas guloseimas para enriquecer os coquetéis que certamente Karina já deveria ter preparado. Tudo isso me dava tempo para recuperar o fôlego e ao mesmo tempo diminuir a possibilidade de encontrar uma mulher doce e cheirosa querendo amor antes do jogo.

Cheguei morto de cansado e precisando, é lógico, de um bom banho, daqueles com direito a relaxar na banheira, fazer a barba, lavar o cabelo, cortar as unhas e dar um trato nos dentes que estão sensíveis... Quarenta minutos dentro do banheiro e saí zerado! Parecia que havia lavado a alma também. É impressionante o que uma boa ducha pode fazer por você em diversas situações diferentes.

Fui para o quarto de Miguel, ainda enrolado na toalha e perguntei a ele sobre um certo jogo que ele havia ganhado no colégio, em uma competição de desenhos. Fiquei mais meia hora ali recebendo instruções complicadíssimas sobre a montagem de cada peça, de forma que o elefante não ficasse torto, nem mesmo corresse o risco de ver sua tromba trocada pelo rabo. Isso era de suma importância, senão o trabalho estaria errado e tão confuso que teria de começar tudo de novo. Troquei o rabo pela tromba umas quatro vezes, deixando Miguel indignado com tamanha falta de atenção. Ele já havia me dito como fazer, porque eu não prestava atenção? Será que eu estava ficando burro, é? Acordei nesta hora, vendo que o abuso das minhas gracinhas estavam lhe dando uma liberdade comigo que não era muito legal.

- Miguel, o que é isso? Porque está falando assim com o Papai? Você me magoa falando assim, porque você está me desrespeitando! Posso não estar muito atento à sua explicação, mas isso não lhe dá o direito de me xingar! Só queria chamar sua atenção.

- Desculpa, Papai. Eu não queria magoar você. Falei sem pensar. Eu acho você grande, bonito, forte e inteligente. Só não é muito bom em jogos.

Não pude mais reclamar. É certo que "não sou muito bom em jogos". Afinal, sempre que podia, o deixava ganhar. Vez por outra eu ganhava, para ele não se achar o máximo ou me achar burro. Distraído nesses pensamentos, fui espetado por mais uma saída esperta do Miguel:

- Pai, porque você vive jogando com seus amigos se você não é muito bom em jogos? Você já ganhou alguma vez deles?

- Ora, Miguel. Claro que já ganhei. Muitas vezes!

Karina entrou no quarto e me arrasou de vez ( eu a odiei por isso):
- É verdade Miguel. Em mais ou menos 10 anos de convívio com seu pai acho que ele já ganhou umas 6 vezes! (rs) Isso porque nós só jogamos 2 vezes por mês. Se a gente jogasse toda semana, acho que ele já teria conseguido mais... Talvez já tivesse ganho assim, umas 10 vezes !

Cínica! Ela me deixou com raiva e Miguel não entendeu nada. O pobre coitado ficou ali, olhando pros dedinhos, como se soubesse contar bem, sem saber se o que a mãe falou era realmente bom. Saí após fazer uma careta bem feia e a deixei morrendo de rir da minha cara.

Me arrumei e, mal havia me vestido, Zé Paulo e Larissa chegaram. Com certeza, ele tinha tirado aquele dia de folga das suas sacanagens extra-matrimoniais, senão, não teria chegado tão cedo. O Ronaldo e a Lucinha chegaram quase meia hora depois, um recorde para eles que normalmente chegam 1 hora ou mais além do horário combinado.

Zé Paulo me chamou na varanda, para fumarmos (Karina detesta cigarros e eu gosto mesmo é de um bom charuto). Me deixou maluco com tanta pergunta. O Zé havia visto a minha deusa entrar no escritório com Marrie. Ele sempre teve uma queda pela Marrie. Acho que ela é uma das poucas mulheres deste mundo que resistiu a uma cantada dele. Sempre que a via, tinha uma gracinha pra fazer, um elogio ou algo assim. Sempre que Larissa não estava por perto, ele fixava os olhos em Marrie, como se estivesse numa cena de sedução cinematográfica. E eu adorava o fato dela rir dele e tirar de letra todas as investidas. Me perguntou se eu tinha visto o seu decote, quase aparecendo o soutien... qual seria a cor dele? E o que ela tanto fazia no meu escritório? Talvez fosse por isso que ela não dava pra ele: ela devia ter um caso comigo!

Eu me aborreço com essas coisas e respondi:

- Você tá doido? Eu nunca tive nem vou ter nada com Marrie. Ela é minha amiga, uma super amiga. Não a vejo como mulher, muito menos como uma mulher disponível. Você esqueceu que ela tem um namoro de 5 anos? Que mora com o cara? Aliás, não fico olhando os peitos das minhas amigas. Sei lá se ela tinha decote, qual era a cor da lingerie ou qualquer coisa assim! (mentira... todo homem olha !!! A diferença é o quanto escolhe ficar olhando e se vai tentar pegar ou não...)

- Então, era a amiga dela né? Só hipnotizado pra não ver o decote da Marrie. Você tava com os olhos pregados na outra e não deu tempo de ver os peitinhos da minha princesa. Meu Deus ! Quem é aquela gata? As pernonas dela você viu, não viu ?

Tive vontade de dar um soco na cara dele! Já estava tão na minha, sem lembrar dela... E aí vem o Zé pra cutucar a onça com vara curta! Como ele pode acertar desse jeito? Que audácia... Que saco !!! Aliás, que ideia é essa dele ficar olhando as pernas da minha... aiaiai... da minha nada... minha nada.

Nunca ia contar aquilo pro Zé. Ele era um tarado. Ia me incentivar a agir de uma forma que eu não queria. Eu precisava fugir e não, ser estimulado. Mas, como já disse anteriormente, não sei mentir. Existe alguma coisa em mim que me denuncia. Acho que tem uma luz na minha testa que pisca toda vez que conto uma mentira. Não dessas mentirinhas "santas", como por exemplo, dizer pra Larissa que nem vi o Zé naquela tarde, sendo que sei que ele saiu com outra.

Não concordo com ele, mas não sou dedo-duro. Principalmente porque, eu sei muito bem como funcionam essas coisas: você conta o que sabe com a intenção de não vê-la mais passando por boba. Eles brigam; ela diz que você o denunciou; eles se ajustam; ele jura que nunca mais fará aquilo; ela acredita, ou finge que acredita; ele continua fazendo e ela continua com cara de boba; mas nenhum dos dois vai querer mais ser seu amigo porque você não tem palavra, não sabe guardar segredo, tem inveja e é fofoqueiro. Talvez até, seja amor recalcado por ela, ou talvez você seja um gay enrustido e seja louco por ele, ou qualquer desculpa que os faça se sentir melhor. Enfim, quando você solta a sua língua para fazer o "bem", eles a transformam sempre, em língua felina, traiçoeira.

Ele olhou para mim, riu aquele riso de canto de boca, mais nojento impossível, e continuou enquanto eu ficava olhando pra sua cara, sem saber se me defendia, com medo de falar bobagem, caso abrisse a minha boca:

- Tô entendendo tudo. Amanhã nós vamos almoçar juntos e aí você me conta, ok? Pensei até que você tivesse mudado de partido. Aí, garoto! Vai faturar as pernonas!

Nessas horas entendo os irmãos adolescentes quando enchem o saco um do outro, e de repente tá todo mundo rolando, esbanjando socos pra cá e pra lá, numa fúria que parece vir de inimigos, e não de gente que se afina e se gosta. A raiva subiu até a ponta do meu nariz e era tão ardida que me deu vontade de espirrar. Eu não podia reagir e ainda ia ter que olhar pra aquele cretino por horas durante o jogo. E sorrindo, segurei o braço dele, bem firme, encarei e falei:

- Zé, não enche o saco! Não sou igual a você não, cara. A gente não tem nada que conversar e vê se não me arranja encrenca, viu!

O safado ficou rindo. Não acreditou. Também, desconcertado como eu fiquei. E eu não tinha feito nada. Não me atrevi com a moça, não insinuei, briguei pra resistir, pra tirar tudo da minha cabeça, pra ser correto com a Karina. Amanhã, seria outro dia e eu ia esquecer como sempre, seria moleza. Mas, eu também não acreditei e nessa hora senti um calafrio, como se estivesse com febre.

A noite não foi divertida como eu precisava, mas pra isso eu disfarcei bem, tomei todas e contei algumas piadas que me lembrei graças ao álcool. Consegui até ganhar duas das cinco partidas que jogamos, mas não foi divertido. Eu precisava que a noite passasse e que o sono fizesse o seu papel de melhor conselheiro, levando embora os pensamentos incômodos e me devolvendo a paz habitual.

Cena 1 - Escritório de Rubens – O dia em que o perigo aconteceu


Ela era linda, mas nem todo mundo enxergava disso. Sua beleza tinha particularidades que só chegando perto, observando, podiam ser notadas, mas, sempre que isso acontecia, era magnético: feitiço eterno. Mas, à primeira vista, era uma pessoa comum. Não tinha traços perfeitos, mas tinha uma pele impecável. Nariz estranho mas, não era grande, só diferente, não convencional. Boca normal, bem feita, não chegava a ser sexy, mas o sorriso era espetacular, dentes muito brancos, que ela dizia ter corrigido com três anos de aparelho, mas para mim, pareciam ter nascido assim, perfeitos. O cabelo era liso, reto, comum, mas muito bem tratado, pouco abaixo dos ombros, negro, quase azul. Mas os olhos, aqueles olhos extremamente negros, amendoados, e profundos, sinistros, devoradores, eram seu grande trunfo, com certeza.

Era doce, silenciosa, sorridente, passava urna sensação de bem estar a quem estava ao seu lado, mas nunca se sabia quase nada dela, pois tinha o dom de se calar, misteriosa.

Conheci muita gente bonita nesse mundo, rostos perfeitos, corpos impecáveis, vozes encantadoras, mas nunca conheci ninguém como ela. Superava a todos pela forma corno, sem fazer nada, dominava a admiração de quem a conhecia.

E assim, ela passou um dia pelo meu escritório, para pedir umas informações e pedir orientação sobre corno proceder em certo caso, urnas dívidas, alguém que lhe devia e ela queria saber qual o caminho certo para fazer a cobrança, etc e tal. Ouvi tudo, lhe dei toda a orientação, e com certeza disse o que devia, pois mais tarde, soube que obteve êxito nas tais questões, mas confesso que me lembro exatamente o que ela disse, e quase não lembro o que respondi, sei apenas o assunto, genericamente. Daquele dia, lembro mesmo dos seus olhos, dos quais eu não conseguia tirar os meus. Por mais que eu tente entender, sempre me parece sem sentido: nunca fez caras, gestos ou mesmo tentou jogar charme. Simplesmente, olhava. Um olhar que eu nunca soube dizer se era inocente, como quem lhe dá a máxima atenção, assim corno o olhar de urna criança, ou se era pura sedução. Mas com certeza, eu me sentia totalmente preso aquele olhar.
Levei séculos para perceber que tinha tantos defeitos, que estava longe de ser um modelo de mulher bonita, no conceito mais popular. Não tinha um corpo escultural. Tinha seios grandes, que eu não sabia ainda se eram bem feitos ou não. Ficava pensando quando olhava para eles, se seriam rijos ou se o tempo já os teria feito despencar; se eram róseos ou escuros os seus mamilos, que talvez também fossem pontudos, como se apontassem para mim, ou talvez discretos, tímidos. Realmente eu viajei nessas idéias até que me encontrei paralisado, com os meus olhos pregados no seu decote, e tornei consciência de que não me importava com feitios ou cores, ou qualquer intempérie negativa que houvesse nos seus seios, contanto que pudessem estar em minhas mãos. Quem sabe não era apenas uma ilusão? Quem sabe ela não usava um daqueles soutiens com espuma, que aumenta os seios, e faz a mulher ter que vestir dois números a mais?

Era magra, mas não tinha cintura de miss, nem quadris arredondados. Mas usava sempre urnas saias absolutamente corretas: meia perna (as coxas, para ser mais exato) à mostra, pernas de enlouquecer! Quando cruzava suas pernas, eu tinha a sensação de que o mundo ia cair sobre mim, mas a saia cedia apenas um centímetro, me deixando com cara de bobo.

Sempre tive a impressão de que era evidente demais. Não só ela, mas meio mundo devia ver escrito na minha testa em neon: Tesão! E discretamente, em baixo, viria escrito: Idiota. Mas, ela nunca deixou claro o que via estampado no meu rosto, ou nas minhas atitudes, de forma que eu me sentia parcialmente amedrontado, mas também, parcialmente estimulado a ir em frente.

Entrou, acompanhada de Marrie, uma amiga em comum, que a tinha levado ao meu escritório corno um favor a urna pessoa muito querida, que estava necessitada de orientação. Marrie nos apresentou e eu a olhei como quem olha para qualquer pessoa, pois até então, ela não era ninguém. Então, eu a convidei a se sentar no sofá (no meu escritório, existe um canto muito aconchegante com um sofá de dois lugares e uma poltrona, macios, bonitos e vermelhos - montei este ambiente assim, pois me dá a sensação de ver as pessoas por dentro em um fundo vermelho, como se pudesse assim, adivinhar se estão dizendo a verdade ou não, coisas de louco, de pseudo psicólogo) e foi o início da minha destruição. Aquelas pernas citadas anteriormente, desenvolveram um sutil balé, ao se sentar, que no fundo vermelho, se transformou numa cena de tirar o fôlego Eu pensei comigo mesmo: "Você está delirando, anda vendo muito filme da Sharon Stone... É isso, respire fundo e trabalhe!".

Olhei para o chão durante meio minuto, levantei os olhos me preparando para ouvi-¬Ia e encarei aquele olhar absurdo me furando e ao mesmo tempo, implorando apenas ajuda:

- Estou sendo vítima de um charlatão, ou melhor, de urna equipe de charlatões. Fizeram um contrato de serviço comigo, não querem me pagar, me ameaçam caso eu abra um processo contra eles e ficam tentando me comprar com pequenos enganos. Já recebi dois cheques, pedindo prazo para me pagar, mas na época, não consegui receber; estavam sem fundos. Preciso desse dinheiro, me comprometi com coisas... Não posso deixar de pagar. O que devo fazer?

Tive vontade de pedir à Marrie para trocar de lugar comigo, pular para o sofá e perguntar tudo sobre o que estava acontecendo: quem eram os canalhas? Que tipo de serviço ela prestou? O que seria "pequenos enganos"? Que coisas eram essas com as quais havia se comprometido? Quem era o cretino que incomodava uma coisinha daquelas?

Respirar fundo de novo... Cadê o meu ar? Meu Deus, o que está acontecendo comigo?

Contive-me e perguntei apenas sobre as ameaças que lhe haviam feito. Afinal de contas, era a única coisa que poderia tirar a mais, se quisesse agir profissionalmente. Ela contou que tinha um filho e que haviam insinuado que algo poderia ocorrer a ele caso ela se precipitasse. E só. Não disse mais nada, me deixando seco de curiosidade.

Peguei a questão assim como havia sido descrita e procurei a resposta mais correta que poderia lhe dar. Fiz sugestões, abordei possibilidades, riscos, e falei algo sobre justiça e sobre o fato de que por medo, os bons ainda deixam o domínio nas mãos dos maus. Ela ia precisar de coragem para enfrentá-los, porque uma vez começado, tinha que ir até o fim.

É impressionante como ela consegue fazer isso: não tirava os olhos de mim nem para piscar. Firmes, penetrantes, atentos. Aquilo me incomodava tanto que por um momento, quase pedi que parasse de me olhar. Só não o fiz porque achei que seria ridículo, ia ma delatar como um idiota frágil, dominado por alguém que não fez absolutamente nada para isso.

Que droga, eu sou um homem ou um boneco? Só me vinha a palavra idiota : “Rubens, você é um total idiota!”.

Finalmente, depois de 50 horas de conversa (meu relógio insistiu em dizer que foram apenas 20 minutos) ela parou de me olhar. Olhou para suas mãos por um minuto e eu a acompanhei. Quando ela voltou a falar, percebi que eu estava quase babando em suas mãos, admirando-as, e eram lindas, bem cuidadas, perfeitas, pintadas de vermelho como o meu sofá... Meu Deus , até isso combinava, nessa trama de sedução armada por algum anjo mal, que de lá de cima cismou com minha cara!

- OK. Obrigada. Você foi muito gentil. Vou pensar em tudo que me disse e ver o que vou fazer.

Falou quase sussurrando, olhos novamente cravados em mim, e se levantou num gesto politicamente correto, sem deixar a saia mover mais do que um centímetro pra cima ou pra baixo (será que ela tem um controle eletrônico pra isso?). Só então vi que era uma mulher alta, mais ou menos um metro e setenta e cinco, esguia e tinha uma postura de bailarina. Na verdade suas pernas não tinham me deixado notar muito mais.

Quando me deu a mão para se despedir, quase a apertei para impedir que fosse embora, mas acabei, por medo (ou um mínimo de lucidez), cumprimentando-a com a mão frágil, frouxa, meio sem coragem de tocá-la. E ali fiquei com cara de bobo, vendo-a ir. Nem sei se me despedi de Marrie. Se o fiz, foi mecanicamente, eu não me lembro.

Demorei a ir pra casa. A imagem daqueles olhos ainda me perturbava. Posso ser tudo nesse mundo, mas não sei fingir. Pelo menos, tenho sempre a impressão que todos sabem quando estou mentindo e isso me faz tão mal que procuro evitar a todo o custo qualquer tipo de mentira.

Karina estava me esperando cedo. Íamos receber dois casais de amigos pra jantar e jogar canastra noite a dentro. Adorei pensar que o programa da noite ia ser esse. Normalmente, a gente joga por horas, ou pelo menos enquanto a cerveja durar, e assim, quando todos vão embora, eu e Karina estamos tão pregados que raramente ela me cobra uma atuação perfeita como marido, para ser mais sincero, nesses dias, não me cobra nem uma atuação ruim. Eu simplesmente desmaio na cama, e ela aceita, ou talvez também esteja de porre e até se sinta aliviada por eu me derrubar tão facilmente.
Mas hoje isso era perfeito. Eu não saberia fazer amor com ela e estar apenas com ela. A imagem daqueles olhos e daquelas pernas mantinha um nó na minha garganta, que era quase perceptível a olho nu. Pensar em uma mulher enquanto faz amor com outra? Isso pra mim é putaria.

Traição pra mim é um conceito muito subjetivo. Você não precisa beijar ou transar com uma pessoa para trair. É um sentimento interno. Considero menos traição, alguém comprometido, que se envolveu com um novo amor e acabou se deixando levar por um momento de magia, mas depois se conscientizou do que havia ocorrido, e tomou uma postura, do que aquele outro que não tem coragem de ir adiante e ver no que vai dar, mas fica todo o tempo sonhando, fantasiando com outra mulher, usando o corpo da sua companheira que inocentemente pensa que é para si toda aquela performance maravilhosa. Este cara está usando a pessoa que diz amar porque não tem coragem de fazer o que deseja.

Jamais vou fazer amor com Karina pensando em outra mulher. Me sentiria podre! Se eu estiver morrendo de tesão, vou para o banheiro e tomo uma ducha fria, gelada, ou então me deixo levar pelas minhas fantasias, mas sozinho. Não uso ninguém.

Às vezes, penso se Karina compartilha desta mesma idéia. Será que ela resolve suas fantasias comigo, com outro, sozinha? Será que ela precisa de mais do que eu lhe dou? E se precisar, será que ela vai à luta, ou sofre sozinha, esperando que eu perceba e melhore? Já discutimos estas questões algumas vezes, mas nunca ficou claro para mim, qual o tamanho do seu apetite sexual.

Não nos casamos virgens, é claro. Aliás, Karina é dois anos mais velha do que eu, e quando resolvemos ficar juntos, ela já tinha 32 anos e uma coleção de ex-namorados tão grande, que batia o dobro da minha. Mas, nesses nove anos de convivência, nunca questionei sua honestidade e sempre questionei suas necessidades como mulher. Aprendi a respeitá-la como mulher independente que sabe exatamente o que quer e isso me dá a segurança de saber que se não me quiser mais, eu vou ser o primeiro a ser informado.

Mas, quando me sinto incomodado, assim, pela presença de outra mulher, me vem mil pensamentos loucos na cabeça. Fico me perguntando sobre a minha própria lealdade, sobre as minhas necessidades como homem, e mesmo vendo que sou realizado, que vivo muito bem acompanhado, e que tenho uma mulher que é incrível na cama e até mais experiente que eu, sinto que tem alguma coisa que não acontece na minha vida, e que me vem em forma de atração por outras mulheres.

É, isso já me aconteceu outras vezes: me sinto atraído por uma certa mulher que conheço, me sinto incomodado, tomo centenas de duchas geladas, e muitas vezes olho nos olhos de Karina, e imploro em pensamento, que ela não me explore, não me descubra, que espere um pouco, pois logo, logo eu resolvo isso dentro de mim mesmo e volto inteiro pra ela. Dura dias, mas nunca durou meses. Um ou dois meses, no máximo. Sempre a conclusão é a mesma: minha mulher é demais! Na verdade, é só ela que eu amo. Mas eu juro: nunca cheguei as vias de fato com nenhuma delas. Na verdade, elas nem sonharam que eu sentia algo por elas, com exceção de uma que chegou pra arrebentar e descobriu tudo que eu sentia num beijo furtivo, roubado, num descuido meu (fugi durante dois meses dela, até que o pavor foi mais forte que o tesão: então a chamei pra uma conversa, olhei-a nos olhos e disse "me esquece"). Sou considerado pelos meus amigos, o exemplo de maridão. Se pudessem imaginar o que passa dentro de mim...

Só que dessa vez, eu estava com medo. Nunca havia sentido nada tão forte. Olhos malditos! Na verdade, esse estigma de maridão, sempre me pesou um bocado. Às vezes, penso se o certo não é ser como o Zé Paulo, um amigo meu, que desde os tempos da faculdade, é meu companheiro de futebol, do escritório de advocacia e de partidas de Canastra em família. Ele é o maior “galinha” que eu já vi na minha vida. Chega a ser constrangedor ver essa convivência com ele e sua mulher, a Larissa. Ela é uma mulher linda, muito elegante, dessas que compra roupas sempre em duas ou três lojas específicas, de um mesmo estilo: roupas bonitas, clássicas, caras. Quando acompanho Karina no Shopping e vejo algo do seu estilo, não consigo desassociar da sua imagem e sempre acho muito bonito (se você acha que ver roupas no shopping é coisa de boiola, tá perdendo a chance de zerar a mente numa atividade muito leve e prazerosa e ainda ganhar bons pontos com sua mulher!). Ela é muito simpática, tem classe, fala três línguas e tem uma pequena loja em uma das galerias mais chiques da cidade, onde vende objetos de arte. Penso que se ela quisesse, poderia colocar um chifre de dez metros na cabeça do Zé Paulo, pois oportunidade de escapar a hora que quiser, não lhe falta. Como eu desejava que isso fosse real. Ela é dona do seu nariz, tem dinheiro suficiente para que ninguém perceba quanto gasta com suas próprias coisas, tem tempo sobrando e recebe todo tipo de gente na loja, inclusive, muitos executivos, artistas, etc. Mas, algo me diz que ela não precisa disso. Creio que ela se satisfaz com os assédios e carinhos do próprio marido. E olha que ele não merece nem um olhar dela. É um safado, com doutorado e aclamado com louvor!

Já o Zé, faz coisas inacreditáveis. Semana retrasada, conseguiu fugir do escritório com uma secretária do andar de baixo, para um "almoço executivo" e voltou às 15hs, trabalhou até às 19hs, ligou para a Larissa dizendo que tinha uma reunião com um cliente, e foi jantar realmente com uma cliente, mas só que na casa dela (aliás, justiça seja feita, a mulher era de parar o trânsito). Foi para casa às 23hs, tendo passado antes num barzinho que frequentamos, só para tomar um uisquinho, e segundo ele, ainda deu conta da mulher que estava toda linda e cheirosa esperando pelo pobre coitado do marido que havia trabalhado até tarde!

Devia ter cadeia pra tanta energia! Três rounds num só dia, tudo bem. Mas, com três mulheres diferentes? Às vezes eu acho que não deveria acreditar. Às vezes, sei que é exatamente assim que acontece.

Confesso que eu o invejo, em parte. É o cara mais simpático que já vi. Ele vive sempre sorridente, cheio de piadas, até de bom gosto, o que lhe confere um charme todo especial. É um profissional da melhor qualidade, quando não se envolve com as clientes. Sua mulher parece estar sempre feliz e ele a bajula o tempo todo, na frente dos outros inclusive. Está bem de vida e é totalmente livre pra fazer o que quer. Não teria motivos para arranjar tantas amantes como faz, mas parece que nasceu para a coisa. Tem pelo menos um encontro extra por semana. Às vezes, repete a mulher (existem algumas coitadas cativas), mas, está sempre arranjando "gado novo" como ele mesmo diz. É um homem bem apessoado (porque um homem nunca admite que acha outro homem "bonito"?), tem corpo atlético e uma lábia incrível.

Só não sei se é feliz. De vez em quando eu o encontro pensativo, deprimido, e quando lhe pergunto o motivo, disfarça, faz uma piada sobre si mesmo e sai de fininho, mas eu sei que sua vida não é o espetáculo que parece e seu "sucesso", na verdade, não deve lhe fazer tão bem assim.
Nessas horas não tenho inveja e acho bom ser como sou: não sou insensível, é claro que me excito com mulheres bonitas, que me sinto tentado uma vez ou outra, mas sempre me senti bem com o fato de poder controlar a minha libido, pensar no que é melhor para mim, e escolher sem grandes traumas.
Mas hoje, eu pensava que se fosse como o Zé Paulo, aquela mulher não teria saído ilesa do meu escritório. Como eu desejei isso! E como estava com medo desse desejo, tão louco, tão diferente de tudo que eu acreditava.

Tudo começa aqui e assim funciona

Fato: a história começou!
Hipótese: ao final os personagens podem ser felizes.
Tendência: delineada pela vida e pela opinião do público.
Porque novela? Porque acontece em capítulos e está sujeita ao sentimento dos leitores, que podem se manifestar através dos comentários no blog.
Porque Conto? Porque conta histórias, tem terceira pessoa misturada com a primeira pessoa e tem um forma de escrita próxima dos contos.
Capítulos semanais.
Sonoplastia: ao seu gosto. Use a imaginação!
Cenários: o texto conduz, a mente enxerga, o coração acredita ou adapta.

História escrita por Cassia Portugal inspirada em fatos que se somam ou dividem a partir de muitas histórias reais (você jamais será denunciado, mas com certeza, em alguns momentos vai se reconhecer).

Pergunta que não quer calar: Qual é o seu jogo? E qual você deseja que seja o jogo dos personagens?

Divirta-se, opine, faça a história acontecer !!!

um abraço da autora.

Cassia Portugal

quarta-feira, 18 de maio de 2011

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

Novela-conto é uma proposta criada por Cassia Portugal, de se voar na imaginação, considerando uma história próxima à realidade, contada em forma de conto, que está à disposição da opinião pública, de forma a poder mudar destino e situações.

Aqui compartilha a imaginação e uma visão sua de como as coisas podem acontecer com as pessoas. As novelas-conto são fruto da observação da autora sobre sua vida e de outras tantas vidas que acompanha. Por vezes se entrelaçam, outras apenas seguem. Não revela, nem macula história de ninguém. Não há uma passagem pessoal ou que conte segredos. Mas sim, a vida de todos, como é possível acontecer, mesclada em magia e verdade.

Para divertir e emocionar.

Opinem, contem suas sensações... Assim a história poderá ter um final diferente do óbvio!

ESTRÉIA - DIA 01 DE JUNHO DE 2011

Neste blog.