VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA
Qual é o seu jogo?

domingo, 12 de junho de 2011

Cena 4 - Saia Justa

Fazia muito frio naquele dia, e eu não podia ficar até tarde no trabalho, porque Miguel havia me pedido para levá-lo na competição de natação da qual ia participar. Nadava muito bem para um menino de seis anos e era sua segunda competição. Na primeira tinha ficado em quarto lugar entre os oito que concorriam, e me disse que desta vez ia tirar o segundo. Só não podia tirar o primeiro, "porque o Marquinho é bom demais, é o melhor de todo o mundo, a gente não chega nem perto dele, Pai, mas eu vou treinar muito e quando tiver sete anos que nem o Marquinho, eu vou ser tão bom quanto ele. Ano que vem vou ser primeiro lugar!". Eu tinha orgulho do meu filho e da forma como ele via as coisas. Precisava estar até 16:00h em casa, pegar o Miguel, correr para a academia. A competição começava às 17:00h.

Eram 15:30h, e eu encerrava um parecer de um processo da Companhia de Mineração, que tinha que estar pronto até o dia seguinte. Já haviam passado duas semanas, desde que ela veio ao meu escritório e eu já lembrava dela como se tivesse sido apenas um sonho. No momento em que terminava uma idéia brilhante com a qual eu sentia que ganharia a razão contra qualquer argumento, Luíza entra no escritório e diz:

- Desculpe, Dr. Rubens. Sei que o senhor não quer ser incomodado, mas tem uma moça aqui fora insistindo em falar com o senhor. Disse que tem certeza que o senhor pode dar um tempinho pra ela. O que eu faço?

- Ora Luíza, pergunte o nome da moça, veja o que ela quer, se não for importante, arranja uma desculpa e despacha! Estou muito ocupado pra atender bobagens.

Dois minutos depois ela voltou pra trazer a notícia que eu não precisava ouvir: Joana era o nome da moça.

Era "ela" que insistia em falar comigo. Meu Deus! Não estava eu quieto no meu canto? Que merda!

- Peça a ela pra esperar cinco minutos e depois a mande entrar.

Precisava de tempo. Tinha que pensar o que dizer e como me posicionar pra não ficar totalmente a mercê dos seus olhos. Fui ao banheiro, vi se meus dentes estavam limpos, olhos, nariz, boca, que droga! Pareço uma mocinha! Voltei correndo pra sala, analisei o ambiente e vi que se me mantivesse atrás da minha mesa, ficaria imune ao menos, às suas pernas. Me instalei ali. Por nada desse mundo sairia daquela posição. O que iria dizer? Era fácil: bastava ser cortês, e perguntar a respeito do seu problema com a tal dívida. Só que enquanto eu divagava sobre tais questões, senti uma sombra que me estremeceu e quando olhei pra cima, lá estava ela em pé, em frente a minha mesa, olhos fixos em mim com um sorriso de propaganda de creme dental. Ah , eu estava realmente me sentindo uma "mocinha", e daquelas virgens, das que tem medo de engravidar com beijo na boca. Vontade de chorar e dizer: "Porque você não vai embora e me deixa em paz, hein?". Ela ali, linda, só me olhando, sem nenhuma culpa:

- Olá Dr. Rubens. Que prazer revê-lo! Desculpe se atrapalho, mas prometo que não lhe tomo mais que cinco minutos.

Quase disse pra tomar a tarde inteira, que ela mandasse que eu obedecia, que minha hora não existia sem o prazer da sua presença. Mas eu só podia estar louco!!!

- O prazer é todo meu. Porque não se senta? Cinco minutos eu posso lhe dar sem sombra de dúvidas.

- Aqui? Porque não sentamos lá na salinha? Não gosto de conversar perto do telefone. Tenho sempre a impressão que as secretárias ficam ouvindo a conversa da gente. Se você não se importar, é claro.

Pensando nessa teoria, disse que concordava e quando dei por mim, estava lado a lado com ela, no sofá de dois lugares. A saia era outra, preta, mas tão maravilhosa quanto a anterior. As pernas com meias finas, pretas, transparentes, sapatos de salto, scarpin de pelica, lindos. Blazer preto sobre uma camiseta fina, azul clara. Neste dia, percebi o detalhe que o Zé queria que tivesse visto da outra vez em Marrie: o decote. Pouco decotada, a blusa tinha uma certa transparência, que me permitia imaginar o que aquela sombra sutil sugeria – soutien preto, com rendas, que em um certo segundo fugiu dos limites permitidos de sua blusa, e olhou pra fora por um milímetro. Quase engasguei nesse momento. Pelo menos, pude acordar para o fato que estava sendo indelicado e olhando na "direção errada" por diversas vezes. Logo eu que sempre fui tão discreto com todas as minhas amigas.
Mas, eu não tinha jurado que não sairia da minha mesa?

- Vim lhe agradecer por sua orientação. Criei coragem e enfrentei a todos que me prejudicavam de alguma forma. Tratei-os como deviam ser tratados. É verdade, que ainda há alguém que me ameaça, mas, não estou com medo. Estou aliviada de ter feito o que era certo. Já recebi até uma pequena parte do dinheiro. Só dez por cento, mas, já é um começo (um segundo de silêncio e os olhos todos os segundos fixos em mim). Queria lhe convidar para um pequeno jantar que vou dar em minha casa, para poucas pessoas, uns quatro casais. Marrie irá, é lógico. Sexta-feira próxima, às 21h (começou a falar cada vez mais lento). Meu aniversário. Você vai?

Era tão objetiva na forma de falar, mas eu não conseguia nunca saber o que havia nas entrelinhas. O que significava "quatro casais"? Será que eram eu, ela e mais três? Ou seria eu e minha esposa, ela e o marido ou namorado, e mais dois? Me lembrei então, que não havia cogitado até aquela hora, o fato de ela ser casada ou não. Mas, é claro que era, pois se ela tinha um filho, ela mesma havia me falado dele. Mas, isso não queria dizer nada. A maior parte das pessoas hoje em dia é separada e os filhos não evaporam por causa disso.

- E então, Dr. Rubens? Posso esperá-lo na sexta?

Nosso Senhor Jesus Cristo' Tenho que dizer alguma coisa! Vou perguntar, senão vou acabar dando mancada.

- Escute, não quero ser indelicado, mas, bem, é que sou casado e o convite é para nós dois?

Para minha surpresa, ou meu desespero, ela ficou por dois ou três segundos calada, me olhando. Não sabia se isso significava surpresa, ou se ela só estava pensando. De qualquer maneira, durante pouco tempo, me senti orgulhoso e me dei ao luxo de imaginar que ela estava interessada em mim, e que eu havia lhe proporcionado com minhas palavras a maior decepção da sua vida. Lógico que nessa altura do campeonato, eu me igualava a ela em poder. Não tinha um olhar 43, mas, tinha palavras fulminantes e dominava através delas!

- É claro que o convite é para os dois. Não seria indelicada ao ponto de tirá-lo de casa sem sua mulher. Não quero criar conflitos (riu, meio que sádica, eu acho...). Terei o maior prazer em conhecê-la. Deve ser uma ótima pessoa. Senão, não teria um marido como você. Então, está confirmado?

Seria o cinismo, um atributo de quem domina? E, onde estava a minha igualdade de poder? Cadê o homem cheio de poderosas palavras? Idiota, de novo! E agora? Será que eu vou? Porque iria submeter Karina a esta situação? Mas, como poderia sair dessa de maneira polida? Por mais que eu quisesse ver em suas atitudes, um sinal da sua atração por mim, não poderia insinuar nem de leve que ela estivesse se comportado mal, ou de forma intencional para me atrair, ou que tudo que se passava na minha mente, fosse verdade. Provavelmente, eu estava carente de alguma coisa e jogando naquela mulher toda a culpa, só porque ela era um bocado atraente, e me fazia mal à circulação sanguínea e ao aparelho respiratório.

- Claro, claro. Desculpe a indelicadeza. É que, não sabia se, você sabia que eu era casado, e às vezes, você poderia pensar num número limitado de pessoas e, eu não queria aparecer com ela lá sem ter falado sobre isso e, é muito chato, às vezes a gente faz um jantar com número certo de pratos à mesa, contrata um buffet só para oito pessoas e vem nove, etc, etc, eu ...

- Fique tranquilo, Dr. Rubens (disse rindo da minha forma atrapalhada de me explicar). Está tudo correto. Não estou contratando um buffet. Na verdade, adoro cozinhar e não perco uma oportunidade pra mostrar meus dotes culinários. Não se preocupe. Mais um lugar à mesa, não é problema. Quem sabe, será mais uma nova amiga e até mesmo, mais uma fã para os meus quitutes. Gostam de frutos do mar?

- Adoro, quer dizer, adoramos!

Agora estava claro. Pela primeira vez, eu tinha certeza de alguma coisa que vinha dela. Ela não havia pensado na minha esposa. Talvez não soubesse que eu era casado. Mas, isso não importava. Ela queria a minha presença Só restava saber se ela tinha algum parceiro para esse jantar.

- Por acaso, vai mais alguém que eu conheço? (perguntei, como se ela soubesse algo sobre o meu círculo de amizades).

- Só Marrie e seu namorado. Como é mesmo o nome dele? Ah, Jerônimo! Sempre confundo esse nome. Quer dizer, eu creio que você só conheça a Marrie, Mas, você vai gostar das pessoas que vão. São pessoas muito queridas, um bom papo, gente bonita e inteligente. Talvez aumente em uma ou duas pessoas, mas, não passará de dez. Aqui está o endereço. Aguardo você. Quer dizer, você e sua esposa. (riu novamente, daquele jeito). Como é mesmo o nome dela?

- Karina. Pode esperar. Não costumo me atrasar.

Despediu-se, com os olhos malditos fincados nas minhas pobres meninas dos olhos.

Pegou a bolsa, e sorriu abertamente. Fiquei deslumbrado. Então, se foi.
Após uns cinco minutos, quando consegui perceber que estava de pé, sorrindo pra ninguém e olhando o chão como se houvesse algo lá, acordei e olhei para minha mesa. Como que por encanto, me deparei com o relógio e o que foi que vi? A hora: eram 16:00h.

Miguel! Eu estava atrasado e meu filho me esperava, provavelmente ansioso, olhando pela janela. Da minha casa até o escritório, eram 15 minutos de carro. Peguei o telefone e liguei pra casa.

- Alô, D. Ana? O Miguel está pronto? Fique atenta, por favor. E diga pra ele que eu me atrasei, mas que tudo vai dar certo, que já estou chegando. Quando estiver perto eu ligo de novo e a senhora desce com ele e me espera na portaria, ok? Obrigada.

Foi uma viagem longa. Como eu poderia esquecer do compromisso com meu filho pra ficar dando conversa pra uma mulher qualquer, que não é nada, nada! Que droga de pai que eu sou? Isso não pode dar certo. Está errado. Amanhã, vou ligar pra ela e desmarcar esse jantar. É melhor ficar longe dessa mulher. É, é isso. Amanhã vou ligar, e encerro esse assunto de vez.

E a longa viagem seguiu nesta mistura de dúvidas e medo!

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