No dia em que Letícia chegou na faculdade, estava chovendo. Chovia tanto que a preguiça era maior do que a ansiedade em começar. Havia batalhado tanto pra estar ali, mas não era o dia em que queria começar algo tão importante.
A tarde havia sido tensa. Seu pai, sempre ligado em algo tão pessoal, nem mesmo havia pensado que aquele era um dia tão importante pra ela. Criara confusão pela comida, pela forma como ela se vestia, e achava defeito em tudo!
Sua calça jeans que mostrava o rego, não era um ato de rebeldia. Antes, era um gesto aliado, das pessoas de sua época, daqueles que pensavam igual sobre o mundo, a política, a economia sofrida da época e sobre o amor. As camisas largas, que lhe impediam qualquer traço de feminilidade, significava liberdade.
Para ele, significava falta de gosto e sugeria uma possível tendência ao lesbianismo. Ele tinha pavor desta possibilidade e a sensação que ela tinha é que teria de chegar um dia grávida em casa, para que ele parasse com aquilo! Mas, com certeza, ele iria apenas, trocar o foco da briga. Passaria a chamá-la de inconseqüente e fácil.
E depois de toda a tarde confusa, a chuva. Torrencial.
Era pra ser um dia de libertação total. Mudara toda sua vida. Ia conhecer novas pessoas e começar a ver um novo mundo. Mas o dia estava cinza e sombrio. Parecia estar colaborando com as idéias de seu pai.
Era tão estranho como uma pessoa tão séria e cheia de preconceitos, poderia ter amantes. Ele sempre as teve. Às vezes, casos sérios. Às vezes, furtivos e curtos. Mas nem se preocupava em esconder. Era revoltante tanto cinismo.
Um dia ela os viu: ele e sua nova companheira. Fingiu não ver, mas viu. Ele sabia que ela havia visto. Á noite, foi ao seu quarto. Estava pálido e comedido nas palavras.
Seu diálogo foi tão patético quanto tendencioso:
- Você foi hoje lá na pracinha não foi ?
- Fui.
- O que você acha que viu ? Não é o que você pensa.
- Se você está preocupado, deve ter algum motivo pra isso não?
- Claro, não quero que você pense mal de mim, seria errado.
- Seria errado eu pensar, ou seria errado o que fez?
- Não fiz nada.
- Não, não fez. Não teve o cuidado em proteger minha mãe do comentário alheio, da possibilidade de alguém vir até aqui contar, de fazê-la sofrer! Desfilou de braços dados, como namoradinho com aquela mulher, pela pracinha por um tempão!
Naquela hora, Letícia quase chorou. O peito pedia, mas a raiva não lhe permitia. Segurou o sentimento na garganta, olhou firme naqueles olhos calados e espantados.
- Não vai falar nada ???
- Não tenho o que dizer. Você não entenderia.
- Tente. Quem sabe, eu não te surpreendo.
- Você sabe que há muito tempo que eu e sua mãe não temos mais uma vida em comum.
- Não, eu não sabia disso. Sei que ela ama você demais e que tira seus sapatos todo dia quando chega do trabalho e traz o seu chinelo, depois corre pra fazer sua janta. É só isso que eu sei.
- Minha filha, a gente não se ama mais há tempos.
- Você não ama. Ela te idolatra!
- Mas agora eu encontrei uma pessoa. Eu estou apaixonado. Ela me completa.
- Então vai viver com ela !!! Ninguém te prende aqui ! Sou adulta e sei me virar. Já trabalho e sou boa companhia pra minha mãe. A gente se basta.
- Falei que você não entenderia.
- Entendo sim pai. No coração ninguém manda. Mas não acho justo você desfilar com outra em pleno dia, no centro da cidade, onde todo mundo que te conhece e conhece a mamãe! Pra que isso ?
- Ela não agüentaria a separação.
- E você acha que a humilhação ela agüenta ???
Ele se calou e se retirou. Sem argumentos. E ela ficou com a sensação de derrota. Não ia adiantar. Ele não tomaria nenhuma atitude nunca!
Haviam se passado dois anos, e ele ainda estava lá. E ainda desfilava pela cidade com a mesma mulher. Ela tinha até conta no nome dele na mercearia. Ninguém mais falava do assunto na cidade. Já se tornara público e até normal.
E sua mãe, continuava a trazer os chinelos. Calada e sorrindo.
Quando Letícia conseguiu encontrar sua sala na faculdade a aula já tinha começado. Morreu de vergonha. Todo mundo olhou pra ela como se estivesse cometendo um crime com o atraso. E o cabelo molhado, a roupa molhada... queria ter chegado bonita, impressionar a todos.
No fundo da sala um rapaz e uma moça sorriram pra ela. Parecia que lhe devolviam a coragem. O rapaz mostrou uma cadeira vazia ao lado dele. Pediu licença e entrou.
No intervalo conversaram. Ele se chamava Jorge e também não conhecia ninguém, além da outra moça. Escrevia versos e sorria um sorriso tão franco e bom que ela não conseguia para de olhar pra tantos dentes brancos.
- Como você se chama ?
- Letícia, e você?
- Jorge, mas pode me chamar de Jorjão que é como meus amigos me chamam.
Ganhava um amigo naquela hora. Lindo, alto e sorridente. A moça que também a tratara como gente se aproximou depois que já conversavam há uns dez minutos. Ela chegou e o beijou na boca.
Engraçado o misto de sentimento que em um único momento lhe veio: gratidão e simpatia pela criatura gentil e revolta por aquela atitude tão íntima com o seu novo amigo. Eram namorados e isso mudava tudo. Seus únicos possíveis amigos, ficariam juntos e longe dela. Não iam ficar lhe dando atenção em vez de aproveitarem o pouco tempo que sobrava entre as aulas. Ela seria a vela, depois de ser única por dez minutos.
Mas uma vez, havia alguma chuva no seu dia.E além daquele leve ciúme (pelos dois), havia a sensação de estar sozinha. De novo. Mas a aula recomeçou e tudo tinha que voltar ao normal.
Durante a primeira semana não conseguiu se entrosar com mais ninguém. Tinha vez por outra a companhia de Jorjão e de Maria por cinco minutos.
Aos poucos foi conhecendo outros que não haviam a rejeitado como pensara. Na verdade sentiam o mesmo que ela. Todos estavam chegando a um lugar novo, cheio de incógnitas, sem conhecidos.
Havia músicos, poetas, filósofos de botequim, estadistas, traumatizados, comediantes, pessimistas, presos políticos, marginais e sábios. Todos o seriam apenas no futuro, mas já eram candidatos aos cargos. Isso podia-se ver pelas risadas, piadas, discursos e silêncios.
Tudo se tornou mais leve e estranhamente atraente. Em dois meses, Letícia conhecia todos e já tinha uma dúzia de bons parceiros de estudo e de boteco.
Seu pai odiava as sextas-feiras, em que ela pegava o carro dele e voltava pra casa às duas da manhã, perfumada de cerveja e cantarolando canções de protesto. Ela, amava tudo aquilo.
Mariano, o poeta louco e insano. Joana, a menina mais triste da turma, mas que sempre acompanhava todos os programas. Idalina, que comandava tudo que se fazia em grupo, João Pedro, que paquerava todas elas e nunca ficava com ninguém, Jorge, Maria, Ana Lúcia, que não sabia o que fazia no curso de Artes pois queria mesmo era ser bailarina, Beto, que insistia em fotografá-la nua, mesmo que ela sempre resistisse aos seus encantos.
Victor Hugo, o tímido, delicado; Luíza, a menina grande e forte, que abria as latas de azeitona e tomava pinga pura; Heitor, o músico e Gabriel, o anjo louro, que se fazia tão amigo, mas não lhe tirava os olhos.
O tempo foi transformando aquela turma em família e em algumas situações isso parecia mais forte do que aquela outra, de laços consangüíneos.
Nem pai, nem mãe conseguiriam quebrar tal união. Havia encanto e cumplicidade em seres tão diferentes e interiormente, tão iguais.
Seu pai nunca entendeu aquela relação tão absurda. Azar dele que nunca fez faculdade. Azar dele que pautou sua vida em enganos, medos e na falta de caráter. Infelizmente, azar também de sua mãe, que pautou sua vida na vida de um homem, que sem amor nem consideração, ainda assim lhe fez escrava, morta da virtude de mulher, inexistente.
Numa dessas sextas, Vitor Hugo chegou triste no boteco onde a turma toda já bebia há 1 hora. Chegou com uma cara daquelas... não queria muito conversar mesmo. Letícia tava de olho e resistiu um tempo até se sentir muito incomodada e se sentou perto dele:
- Que foi Vitor, que cara é essa? Te conheço, não tá bem, né?
- Vou embora Lê, tenho eu ir.
- Embora? Você chegou tem meia hora, se não quiser conversar tudo bem, desculpe forçar.
- Não, não é isso... Vou embora de vez. Preciso ir... pra sempre.
- Ochi, vai embora pra onde? Mestrado? Quando? Seus pais vão mudar?
- Vou sozinho, pra longe, não sei mesmo pra onde, mas vou ter que ir.
- Tá, mas o que tá rolando?
- Tô guardando comigo tem tempo, não aguento mais, preciso ficar só.
- Vitor, você tá me assustando... Que aconteceu ?
Vitor levantou, deu um beijo em Letícia e falou que tinha que ir no banheiro, que tava apertado.
Não voltou. Aproveitou e se mandou sem completar.
No dia seguinte, mandou uma mensagem no celular da Leticia.
“Preciso te ver, me encontra às 17h no boteco lá do Pipo. É sério. Beijo. Vitor”

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