O quarto era enorme. Uma cama king que me convidava só de pensar em quem estaria ao meu lado. Milhões de almofadas sobre ela e ali eu imagina aquele vestido vermelho mergulhado. Luzes pequenas e velas pra todo lado, flores na parede, num papel que adornava a cabeceira da cama e espelhos, em frente, em quase toda a parede da frente. Bonito e ousado, um ambiente feito para o amor...
Ao lado da cama, um móvel cheio de andares, onde se exibiam copos, taças, bebidas, balde de gelo, potes com biscoitos e bombons, e é claro, flores e velas.
Ao fundo, um pequeno frigobar, todo pintado de azul, estilizado. Uma poltrona enorme de um outro lado, ao lado de uma mesinha redonda cheia de livros, ao lado de uma estante pequena, mas também cheia de livros.
Uma porta dava passagem ao closet e ao banheiro, que escondia uma banheira redonda e totalmente rodeada de vidros belos cheios de liquidos coloridos, que não sei se era de shampoo, perfume, ou sei lá o que. E flores.
Era magnifica a beleza daquele apartamento e como trazia a minha cabeça a ideia de uma noite sensual, cheia de encantos e mistérios, e ao mesmo tempo doce, longa, deliciosa...
Karina falou e eu levei um susto que quase me traí:
- Amor, nunca vi nada tão bonito. Realmente eu moraria num quarto desses!
Senti uma dor no peito quando vi o que estava acontecendo e como eu estava ali, ao lado dela e pensando tanta coisa absurda.
Quanta insensatez da minha parte, eu que sempre havia criticdo o Zé, agora me comportava como ele. E com uma esposa tão maravilhosa quanto a minha.
Eu a abracei calorosamente e disse:
- Quer um igual ? É bonito mesmo.
Ela me sorriu suavemente, me deu um beijo delicado e disse:
- Igual não, este é a imagem da Joana. Quero um tão lindo quanto, mas diferente, que seja a nossa imagem !!! Algo que pertença a nós dois, apenas!
E me olhou de uma forma que eu imaginei que ela estivesse sacando tudo que estava acontecendo ali.
Retornamos à sala de mãos dadas e eu procurei imediatamente uma bebida, pra ver se me ocupava com alguma coisa que não tivesse ligação com tudo aquilo.
Achei minha taça de vinho, depositada na varanda quando recebi o convite ao quarto e o tomei como se fosse um copo dágua em mãos sedentas.
Ao retornar à sala, vi Karina me olhando e sorrindo. Com certeza, ela já havia percebido minha aflição. Só não sabia se ela já havia percebido o motivo. Achei melhor ficar ao lado dela, por segurança.
O jantar estava delicioso e como tudo naquela noite, exótico e diferente. Marrie me deu guarita em dois ou três foras que dei, com essa minha mania de falar sem pensar. Mas a verdade é que, sempre que isso acontecia, as duas estavam me olhando fixamente: Joana, com aquele olhar maroto que seduz e não diz nada; Karina, com o olhar carinhoso e observador, de quem diz: 'não sou trouxa'!
Mais tarde, licores, cafés, jazz no ar e uma conversa boa entre todos na sala. Parecia estar tudo calmo. Uma ótima oportunidade para sair sem deixar sinais impróprios e com o meu eixo retomado.
Celso e Cristina já haviam se despedido logo após o jantar, pois ele tinha cirurgia no dia seguinte, cedo.
Num minuto, Marrie começou a dizer que estava tonta, se sentindo enjoada, estranha. Karina levou-a para o banheiro social e Jeronimo a acompanhou. Maia já estava tão bêbado que nem tomava conhecimento do que estava acontecendo. Pelo que me lembro, ele cochilava no meio de nossa conversa e, nesse momento, ele mais que cochilava, parecia estar realmente dormindo, sentado numa poltrona enorme ao canto da sala.
Estávamos completamente sós na sala e Joana chegou perto de mim.
- Não imaginava que pudesse acontecer algo assim hoje. Se pelo menos Celso ainda estivesse aqui pra diagnosticar o que ela tem...
- Não se aflija. Karina e Jeronimo estão dando suporte. Talvez seja um pouco de bebida a mais, Marrie não é de beber muito.
- É verdade, uma vez tomamos um belo porre juntas e ela deu vexame! Mas só tinha tomado dois drinques! (risos) Eu que estava no meu quarto copo tive que tomar providências e a carreguei quase arrastada. Foi uma loucura !!
Disse isso com a carinha mais sapeca do mundo e uma gargalhada tão gostosa! Eu a peguei e segurei o seu rosto. Parei. Pensei por 10 segundos, olhos nos olhos...
- Loucura é eu estar aqui. Acho melhor ir embora.
Me levantei disposto a pegar Karina e sair.
- Espere, Marrie precisa de Karina. Não vá agora. Não vê que tudo isso aqui foi pra você?
Cheguei a me sentir tonto com a revelação. Isso sim era loucura! Não era coisa da minha cabeça apenas, ela também me queria da mesma forma que eu! Senti a excitação me dominar, o suor chegar e o coração disparar de forma indecente. Eu a olhei de volta, peguei seu rosto em minhas mãos e disse:
- Não sei o que está acontecendo, mas sei que devo ir embora. Marrie pode contar com você pra ajudá-la. Mas quem vai me ajudar? Quem vai poder domar o que eu estou sentindo agora? Joana, se eu ficar com você mais dois minutos, vou fazer uma bobagem sem volta.
Tentei sair e ela me puxou. E por um instante eu mergulhei na sua boca, doce e macia, sem folego, sem juizo...
Fugi correndo, fui ao banheiro, peguei Karina, pedi desculpas ao Jeronimo, pedi em alta voz pra Joana cuidar de Marrie, e saímos quase imediatamente.
No carro, Karina foi em silêncio até nossa casa. Ao estacionar ela me perguntou:
- O que houve? Porque saímos assim?
Não respondi. Não sabia o que dizer. Só sai do carro, abri a porta pra ela, a peguei pela mão e a levei firmemente pra dentro.
Fingi que dormi. Eu acho que ela fingiu que dormiu. O silêncio que ouvi por toda a madrugada fez as horas passarem devagar e a tristeza de não saber mais dominar meus sentimentos tomaram conta de cada segundo. E o gosto daquele beijo, eu tinha a impressão que nunca sairia da minha boca.

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